Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
11 Setembro de 2013
PARTE II
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Ligações em cadeia
Num mundo integrado economicamente, as cadeias de oferta e fornecimento de bens e de mercadorias vitais são internacionais, mais do que nacionais. Isso torna-as sensíveis a mudanças na estrutura de custos, no valor das divisas e nos custos de transporte.
As cadeias internacionais de abastecimento à escala global são também vulneráveis à ruptura dos fatores climáticos ou ambientais. O tsunami japonês e as inundações na Tailândia de 2011 colocam bem em evidência a vulnerabilidade das cadeias de abastecimento, quando a escassez de componentes menores, mas essenciais, paralisaram a produção num outro lugar qualquer. Estes desastres também evidenciaram a ameaça para garantir o acesso a recursos essenciais, como petróleo, água e comida.
Há agora um maior reconhecimento de que a especialização deixa as economias nacionais e regionais vulneráveis à pressão da concorrência de outras nações ou localidades ou mesmo das deslocalizações nas cadeias de abastecimento à escala global . Estes fatores também podem conduzir a uma inversão da globalização e a uma mudança para que as economias queiram ficar menos expostas, portanto, que queiram ficar mais fechadas.
Ligando as fugas
A soberania económica e política é prejudicada pela globalização. A crise financeira revelou que a integração reduz a eficácia das políticas económicas nacionais, a menos que as outras nações assumam uma acção coordenada.
À crise financeira global, os governos reagiram iniciando grandes programas de despesa pública para apoiar a economia. Em muitos casos, houve significativas fugas financeiras, com as despesas a dinamizarem as importações em vez de se promover o investimento, o emprego, o aumento de rendimento disponível para as famílias e a procura interna.
Alterações na política orçamental podem ser tornadas completamente ineficazes se outros países não estão a seguir o mesmo caminho.
Os problemas são maiores nas questões globais, a exigirem políticas internacionalmente coordenadas, tais como as variações climáticas e uma melhor gestão dos escassos recursos não-renováveis. As nações emergentes não estão dispostas a aceitar iniciativas que colidiriam com a sua política de crescimento e com a sua flexibilidade em termos de políticas. Eles argumentam que os problemas são o resultado de práticas passadas pobres e de uma má gestão dos recursos praticadas pelas nações desenvolvidas e face às quais não têm elas agora de pagar a factura.
Isto também implicitamente incentiva a prossecução de estratégias que favorecem os objectivos nacionais em detrimento de outros países. Os acordos internacionais sobre questões globais que requerem auto-sacrifício por parte das nações tornam- se cada vez mais difíceis.
A autarcia ou situações de economias fechadas ou a fecharem-se é um caminho natural para lidar com estas pressões e reassumir o controle soberano. Como uma nação adota tais políticas, esta situação obriga depois os outros países a adoptarem estratégias semelhantes para proteger seus próprios interesses.
O mal-estar nas relações comerciais
Várias rupturas — restrições comerciais, manipulação do valor das divisas, controles de capital e regulamentos predatórios — são agora o sinal do entrincheiramento face à globalização e de um retorno à autarquia.
Apesar das afirmações muitas vezes repetidas nas reuniões do G-20 sobre a importância e vantagens do comércio livre e evitando os erros da década de 1930, as restrições comerciais estão a aumentar. A motivação é a proteção das indústrias nacionais, de empresas ditas símbolo ou de núcleo duro da economia nacional, de emprego, dos rendimentos das famílias e das vantagem competitiva.
Subsídios, políticas de aquisição dos governos a favorecerem os fornecedores nacionais, as campanhas “compre local”, as políticas preferenciais de financiamento e a assistência à indústria são instrumentos utilizados para direcionar a procura . A segurança e as normas ambientais são usadas para evitar que os produtos estrangeiros penetrem nos mercados nacionais.
A intervenção directa, as taxas de juro artificialmente baixas e a flexibilização quantitativa, a quantitative easing, são políticas deliberadas para manipular as moedas. A desvalorização torna as exportações mais competitivas servindo assim aos países individualmente considerados para procurarem capturar uma parcela maior do comércio global, impulsionando o crescimento. A desvalorização também é usada para reduzir os níveis da dívida em termos reais, reduzindo o poder de compra dos investidores estrangeiros titulares de títulos da dívida sobre uma outra nação e com a dívida expressa na moeda desse mesmo país.
Mas tais ações convidam a uma retaliação destrutiva sob a forma de guerras das divisas, na forma de olho por olho, dente por dente. Em Fevereiro de 2013, o Ministro das finanças do Chile, num seu artigo publicado no Financial Times advertiu que “procurar alívio em detrimento de outras economias, [flexibilização quantitativa] é, na sua essência, uma política global contraproducente”. O processo também é em última análise, autodestrutivo, pois é impossível, por definição, que cada país tenha a sua moeda mais barata que os outros países concorrentes.
(continua)
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Para ler a Parte I deste trabalho de Satyajit Das, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

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