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A ESTUPIDEZ É UM CÃO FIEL – 21 – por Sérgio Madeira

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Nos capítulos anteriores – Em Abril de 2009, António Amaral, aconselhado pelo cardiologista a, perante a ameaça de um leve acidente cardiovascular, vai passar umas férias na ilha de Porto Santo. Numa  manhã, fazendo jogging pela praia, encontra o corpo de um homem morto tiro. Enquanto as investigações decorrem, António e sua mulher, Cecília, vão conhecendo a ilha. Outro plano narrativo decorre em 1972 onde, em Moçambique, se desenrola uma operação militar contra uma aldeia suspeita de abrigar um líder da guerrilha. Em Xuvalu, consumado o massacre, eclodem as tensões entre militares e agentes da polícia política. Em Lourenço Marques, um dos militares intervenientes no ataque à aldeia, enfrenta um fantasma. No Porto Santo, António tem surpresas.

Capítulo vinte e um

O inspector Ramos, sempre carrancudo, fez a pergunta a ficou de olhos fixos em António, como se o quisesse intimidar, devassar segredos, expor contradições… António respondeu sem qualquer hesitação, mas também de mau modo:

– Claro que conheço. É meu médico e é meu amigo. – e acrescentou – Porquê? O que tem isso a ver com o caso?

O inspector assumiu o ar intimidatório que esboçara. Quase berrou:

– Há uma coisa que tem de ficar calra – aqui quem faz as perguntas .sou eu. Você limita-se a responder…

António deu um salto na cadeira:

– Você é estrebaria!  – voltou-se para o tenente Fragoso – O senhor tenente falou-me num conversa, numa troca de impressões, não me avisou de que ia ser interrogado por um pide. Pensei que estes animais faziam parte da história… O tenente tentara interromper o inspector e tentava agora deter a catadupa de queixas de António:

– Dr. Amaral, olhe o seu coração, não se excite. Trata-se de um mal entendido. – voltou-se para o inspector Ramos – Sr. inspector, aqui na Capitania, as coisas são conduzidas como eu quero. Se quer interrogar o senhor Dr.António Amaral à sua maneira, siga as vias legais e faça-o na sus polícia. Aqui, sou eu quem manda.

– Considero insultuosa a comparação  que esse… senhor fez- rouquejou o inspector. – O senhor não tem o direito…

-Não, o senhor é que não tem o direito de falar num tom intimidatório para um cidadão que se limitou a cumprir o seu dever.

O tenente Fragoso com uma voz firme impôs de novo a sua autoridade:

– Dr Amaral, não se excite,  – voltou-se para o Ramos – Sr. Inspector, nesta Capitania quem impõe as regras sou eu. Pedi ao Dr. Amaral que viesse aqui precisamente por causa desse esclarecimento sobre o Dr. Alfredo Nunes. Mas, como é óbvio, temos de explicar por que razão colocamos a questão.

O Ramos resmungou:

– Explique-lhe então o senhor tenente… comparar-me a um pide…

O tenente piscou um olho para António:

– Entre os papéis do sargento encontrámos cartas do médico, do Dr. Nunes. Lembrei-me que durante a nossa primeira conversa me falou que tinha sido esse cardiologista que lhe tinha aconselhado as férias aqui. Fui ver os meus apontamentos do seu depoimento e lá estava. Claro que pode haver muitos cardiologistas com o mesmo nome. Mas tudo nos leva a supor que se trata do mesmo. O seu amigo mora na Parede onde tem também um consultório?

–  Sim.

– É, portanto, o mesmo.

António tentou demonstrar indiferença, mas estava surpreendido. Julgou ver na expressão do Ramos uma expressão de triunfo. Disse:

– Bem, senhor tenente, nada sei sobre a amizade do Nunes com o sargento. Sei que prestou serviço militar em Moçambique. É tudo o que sei.

NO PRÓXIMO CAPÍTULO: Lourenço Marques, 1973. 

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