
Prosseguimos hoje a publicação deste trabalho de Marília Librandi Rocha sobre a colectânea Cantares de Rachel Gutiérrez.
O caminho que se percorre é também o caminho do tempo, da noite “transfigurada” que fecunda o dia, e traz como fruto o poema. Nesse aspe
cto, alguns dos poemas de “Cantar de Amor” remetem ao gênero denominado “alba”, desenvolvido na lírica provençal, quando o eu-lírico lamenta a chegada do dia que obriga os amantes à separação. Aqui a noite é louvada (cf. “Hino”) e a “glória indizível do dia” pode tornar-se “quase insuportável” (cf. “Depois”). O andamento, que pode ir do lento ao presto, compõe um ritmo descrito como “a dança do meu silêncio”. Silêncio povoado de vozes, corpo que dança devolvendo a alma a si mesma, num movimento corporal embalado pelas pausas que geram o ritmo, espaço em branco, entre os versos. E o reencontro com a poesia corresponde ao encontro de um “amor misterioso”, “feito só de desejo e sonho”. O final desse primeiro poema indica-nos que esse reencontro com a poesia é reencontro do eu lírico consigo mesmo, espelhamento nos versos como auto criação e invenção. Nele, o eu se dirige a um tu, nomeado “meu Anjo” e que será o interlocutor de todo esse grupo de poemas, como mensageiro. A partir do segundo poema, compreendemos que o Anjo tem uma ascendência – o Anjo das Elegias de Duíno, de Rainer Maria Rilke. Mas aqui não é o Anjo terrível de Duíno, mas um dócil, meu Anjo, com quem o eu-lírico dos poemas dialoga. Como nos informou a autora, o título desse segundo poema, “reiner Widerspruch (Rilke)”, remete ao auto-epitáfio do poeta: Rose, oh reiner Widerspruch. Lust, / Niemandes Schlaf zu sein unter soviel / Lidern (Rosa, ó pura contradição. Volúpia de ser o sono de ninguém / sob tantas / pálpebras).
“Lembrei do Rilke – disse-me ela – embutindo a palavra reiner, que tem exatamente o mesmo som de RAINER, no autoepitáfio… e Lidern – pálpebras – tem o mesmo som de Lied / Lieder – canção”. Em tom “quebradiço”, o poema fala em “desejos no vazio”; “amores tristes”; “aspirações sem rumo”; mas que podem também dar lugar a “momentos grávidos do infindo”. A imagem que recolhe em si “o caminho percorrido” dá continuidade a esse movimento de gestação como o de fora – caminho – agora percorrido dentro . Os dois poemas seguintes, “Uti Possidetis” e “Posse” ampliam a metaforização espacial/ corporal com a imagem do “Território” semeado. Lírica também libidinal (per tot lo cor m’intra l’amors), o anjo entra em cena semeando palavras poéticas pois que “em versos me escreves” (“Posse”). Trata-se então de um eu-lírico que, visitado (cf. “Visitação”), não tem posse sobre o que escreve, mas é pela escrita possuído. Procedimento do poeta extasiado (cf “Bernini (êxtase)”, tomado pelas Musas ou Musos. Para essa voz lírica o estado de “exaltação poética” é o momento d’ “o gozo sem repouso do desejo antes do beijo” (verso do livro anterior). No caso da escrita de Rachel Gutiérrez o território do eu lírico feminino aparece então nessas metáforas corporais – identificação do corpo na imagem de acolhimento, recebimento e gestação.
Mas receptivo é também ativo, é um auto-engendrar-se, é um chamamento também enquanto canto – do amante (que ele canto mesmo inventa) e da poesia, enquanto ação de cantar e nomeação.
No poema “Marca”, os versos iniciais “graças te dou, meu amigo / por tua ausência sem peso”, leva-nos a pensar que essa ausência é semelhante à do silêncio que cria o ritmo, como condição do poema e do poetar de amor. Lembre-se por exemplo os versos de Hilda Hilst, em Ode descontínua e remota para flauta e oboé. De Ariana para Dionísio: “É bom que seja assim, Dionísio, que não venhas.
/ … / E o verso a cada noite / Se fazendo de tua sábia ausência”3. A ausência como necessidade do canto se fazer presente enquanto evocação de lamento ou júbilo. O amor, o erotismo, é praticado com fins de elevação espiritual e poética, como se fosse uma necessidade não possuir o objeto do desejo para fazer do desejo o objeto do canto, como tanto já se escreveu a respeito. Assim, a epígrafe de René Char que abre este livro, podia também lembrar outro verso
do mesmo poeta – “Le poème est l’amour realisé du désir demeuré désir”.
O 10o poema, “Depois…”, indica que a “tempestade” criadora passou. E o que fica é um “perfume de açucenas” / sortilégio de poesia”. Ar e aroma, é canto que se faz lance de magia, bênção e bruxaria. A partir daqui começa o segundo movimento desses poemas, moderado. Agora a “Caminhada” é “triste”, 3 mas novamente o caminhar dos passos e as ondas do mar “trazem de volta / numes e musas / deuses, duendes /… / tudo o que povoa / e celebra / a minha livre solidão”. A exaltação da poesia como sublimação é paralela à condição solitária do poeta, e a poesia cantada como entusiasmo pode também ser sentida melancolicamente como “fardo” (cf. “Bruma (coda)”, pois destino de solidão.
Com “Sonho?” o presságio do fim do caminho, e em “Solombra (Cecília Meireles)” o tom de um “adágio de sombra” pois agora é o tempo prolongado de espera, de um alguém que não vem e só demora, angústia por uma chegada que é só partida. Por isso, na seqüência, “Mágoa” com as cinzas da morte lembrando o “Amor – chama, e, depois, fumaça…” dos versos de Manuel
Bandeira em “Cinza das horas”. O poema e a visita na madrugada já não vêm, e o que há são as saudades. Com “Montale”, o que resta: “só o delírio é verdade / só o poema / é real”. E é essa realidade que o poema seguinte, “Narciso” irá autocelebrar como “fêmea animal / que lambe e relambe a cria úmida e quente”. Como poeta com os pés a dois centímetros do chão, “Zéfiros” finaliza a primeira parte e compõe a linha paralela que irá se encontra com os pássaros “impelidos em seu vôo / no ar da manhã”, do poema traduzido de Rilke, no último dos cantos.
_______________
3. Hilda Hilst é também autora de um Cantares do Sem Nome e de Partidas, Massao Ohno,1995)
Conclui amanhã
