Marília Librandi Rocha, professora de Literatura Brasileira no Departamento de Culturas Ibéricas e Latino Americanas da Universidade de Stanford (EUA), com doutoramento em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo, escreveu um prefácio para Cantares, o livro de Rachel Gutiérrez de onde temos trnscrito grande maioria dos poemas que, desde há meses, publicamos nas manhãs de sábado. É um excelente texto que, pela sua extensão, dividimos em três partes, e para o qual pedimos a vossa atenção.
Ao som de pássaros de outra manhã, Rachel Gutiérrez caminhava, do Leme ao Posto 6, do posto 6 ao Leme – navegando em terra firme, no alvorecer do dia, ar e alba de Copacabana
. E das ondas da praia, das ondas do mar, ecoavam vozes e versos, amigos e amores, paixões aladas feitas só de ar e de andar. Puro gozo – soprado de onde? De que vagas, de que páginas? Iam e vinham, os versos. Sempre assim: um sopro, uma passagem rápida e zéfira, seu Anjo.
E sendo o Anjo portador de mensagem, este prefácio toma-lhe das asas emprestado para fazer a intermediação entre os leitores e o livro que se vai ler. Mas sendo filho daquele outro, torto, não traz revelação porque é texto que caminha enviesado e trôpego atrás dos passos do Livro de Rachel, que lia, seguindo as trilhas do seu cantar.
Cantares compõe uma itinerância poético-amorosa. O corpo que há é o próprio livro, as letras impressas, os versos quebrados na página, este prefácio, a quarta capa, a capa. O que não há, porque veio antes, é o momento de sua elaboração. Por tê-lo acompanhado, é a partir desse ponto de vista próximo que escrevo, não apenas para ou sobre mas com a Autora, incluindo também suas palavras.
Cantares é plural alusão a outros Cantos. O título alude à íntima e inerente associação lírica, entre letra e música, motz el son, palavra e melodia, para quem como Rachel Gutiérrez começou a escrever poesia após dedicação exclusiva à música como pianista. Na sua forma infinitiva, é usado como sinônimo de ‘cantiga’ e ‘cântico’, como Cantares de los Cantares, na tradução espanhola para Cântico dos Cânticos. Mas dentre os cantos especialmente peculiares à autora, há o do poeta italiano, Leopardi , no livro Canti, com o longo poema “Le Ricordanze”1. Para o leitor brasileiro, o título pode lembrar o Cantares, na tradução dos irmãos Campos e Décio Pignatari para o livro de Ezra Pound, The Cantos. E pode lembrar também, com mais propriedade porque mais próximo do livro de Rachel, o Retratos da Origem, com sua última parte intitulada “Cantares de Itatiaia”, de Dora Ferreira da Silva, que traz o mesmo tipo de verso escalonado e também canta o amor ausente, além de ser ela, como Rachel, poeta e filósofa. E ainda há de se lembrar do soneto de Drummond, “Remissão”, com seus “pesares” e seu “travo de angústia nos cantares” que passam como tudo o mais, com a grande diferença de que no livro de Rachel o canto faz-se ocasião de celebração e júbilo pelo que fica : pelo tempo que desfaz-se / em / pó / quando sopram as palavras.
O livro é composto de 34 poemas e vem bipartido em “Cantar de Amor” e “Cantar de Amigos”, denominação semelhante à das cantigas trovadorescas que do século XII espalharam-se da região do Midi na França para a Europa, aí estendendo seus domínios e motivos por toda a lírica posterior. O livro não segue porém, como na poesia galego-portuguesa, a distinção de gêneros entre eu-lírico masculino, nas “cantigas de amor”, cantando a senhora a quem serve segundo os parâmetros do amor cortês, e eu-lírico feminino cantando o amado nas “cantigas de amigo” – pois aqui o canto caminha sempre no sentido de um eu lírico feminino cantando amor e amigos, como se verá pela recorrência das metáforas alusivas ao corpo feminino. É de se notar, no entanto, que o ar vem do ar. Ao escrever é-se ao mesmo tempo um e outra, uma e outro; midons, na dúplice denominação que o trovador provençal dava à amada, ao mesmo tempo “senhor” e “dama”, ambivalência mantida na tradução em galego-português, “mia senhor”. De modo semelhante, ao cantar o amor, canta-se também o ‘Amors’ então entendido como um “primeiro princípio”, um “senhor” universal que rege todas as relações humanas, mas que é também uma dama, pois o vocábulo ‘Amors’ é feminino na língua da antiga Oc 2. Idílio amoroso, na primeira parte canta-se o amor insatisfeito, o duplo movimento de joi e sofrirs (alegria e sofrimento), a partir e através da visitação de um Anjo. São poemas que traduzem de modo sutil e intenso a vivência de um amor que não se toca, de um ausente de corpo (anjo) que se faz presente de palavras. Na segunda parte, os poemas se fazem canto de louvor aos amigos-poetas já idos.
O livro todo Evoca outros versos no interior de seus versos, remetendo a poetas e poemas de distintas épocas e vozes. Assim, já na primeira parte, pode-se reconhecer em “iluminada de imenso”, o verso de Ungaretti (“M’illumino d’immenso”, em “Mattina”); em “perfume de açucenas”, alusão a San Juan de la Cruz (“Quedéme y olvidéme, / el rostro recliné sobre el amado, / cesó todo, y dejéme, / dejando mi cuidado / entre las azucenas olvidado”, de “Noche Oscura”) , além dos poetas diretamente citados no título dos poemas, como Cecília Meireles, Eugenio Montale, Breton, e sobretudo Rilke, de quem é o poema traduzido que encerra o livro.
Por essa constante evocação de outras mensagens poéticas, elegemos o poema “Outlook”, que destoa de todos os outros de Cantares por vir expresso em registro cômico (registro que seria próprio ao discurso amoroso, começando pelo Banquete, na leitura de Lacan), como paradigma para pensar o ir e vir de mensagens, dependente do meio em que se propagam. No caso, a evocação da lírica passada se faria presente em Cantares sob o signo dessa máquina alada que transmite mensagens e sentimentos de outrora, reatualizando o canto antigo no atual meio de transmissão de textos, cartas, bilhetes e poemas, seja correio eletrônico ou livro impresso.
Estabelece-se assim que um dos valores dessa poesia encontra-se nesse dar notícias de outras eras e vozes, agora. Em dicção concisa, é livro que canta o cantar, por isso Cantares, poesia que se canta a si mesma, não apenas como autolouvação mas como sua condição de existência (pois é da presença ausente dos poetas cantados que ela se faz eco e reverberação).
No primeiro grupo de poemas, 20 são os cantos de amor , e no segundo, 14 são os cantos de amigos. Circular o Cantares pois que “Cantar de Amor” finaliza com o verso: “quando as palavras sopram “ e “Cantar de Amigos” com “quando os sinos soam” – mesma estrutura frásica / mesma estrutura de composição do livro. Assim compreende-se que o fecho de ouro reabilitado em
muitos poemas combina-se com o não-fecho das palavras, sons, vozes, ritmos, que passam e voltam a soar, passam para voltar.
Os vinte poemas de “Cantar de Amor” convidam a ser lidos em conjunto pois compõem um percurso amoroso com uma narrativa única. Os dez primeiros, dão o movimento do despertar do amor e da poesia, e os dez últimos, a queda, a solidão, a melancolia , o fim da caminhada, encerrando-se, no entanto, com o reinício do cantar. Assim, se o poema de abertura, “Reencontro” termina com o verso: “me devolve a mim mesma”, o penúltimo, “Ricordanza”, termina com o verso “me deste notícias de mim”, compondo um círculo que na verdade torna-se espiral pois após vem “Zéfiros”, poema que encerra o “Cantar de Amor” com a continuidade de seu próprio canto: “Tu vens e vais / existes / e não existes / longínquo, / inatingível, / te reinvento presente / e próximo / (como um amante)”. Nessa reinvenção operada pelo eu-lírico o tempo da narrativa do amor “desfaz-se / em / pó / quando sopram as palavras”, indicando simultaneamente o fim do tempo e o tempo sem fim, moto contínuo. O outro a quem o eu lírico se dirige, presente ou ausente já não importa, pois o que permanece é o retorno do sopro, invenção poética de uma arte amatória que reinicia um novo canto, sempre o mesmo , indiciado nesse: “tu vens e vais”.
Poesia do eterno retorno, Cantares tem uma melodia sentida, sofrida, e ainda assim doce, povoando e celebrando-se, apesar de. Sua composição ou o desenho de seu cantar pode ser pensado, eu diria assim, como uma “estratégia da aranha”, pois cerca o amor e os amigos de linhas por todos os lados, ligando os fios como tática para manter e proteger. Passo então a comentar as teias do livro, na sucessão dos poemas.
Cantar de amor “julguei perdidos os deuses meu Anjo e a poesia” dizem os versos do poema de abertura, “Reencontro”, que concentra a tônica do livro e também da trajetória poética da Autora. Antes e sempre leitora, Rachel Gutiérrez escreveu seu primeiro poema aos 50 anos. Até então a música era o seu território. Nascida em Sant’Ana do Livramento, Rio Grande do Sul, na fronteira também das línguas, o que a levou para a arte da tradução (do italiano, espanhol, francês e inglês). A biblioteca de seu pai a fez ser habitada
pela poesia desde a infância: M. Bandeira, Cecília Meireles, João Cabral, Garcia Lorca, Fernando Pessoa; depois os ingleses, Yeats, Donne, Auden, e também Stefan George, Holderlin. Mas o poeta de sua predileção sempre foi Rilke desde que leu A Canção de Amor e de Morte… aos 16 anos. Seu primeiro livro de poesia, Comigos de mim (Massao Ohno, São Paulo, 1995), dividia-se em: “Comigos de mim”, “Penélope” e “O duplo”. No título (verso de Fernando Pessoa, “Eu que me aguente comigo / e com os comigos de mim”), a indicação de um eu que se duplica, se reverbera de si para si mesmo, se auto-engendrando poeticamente. Se aqui havia também um encontro gerador de poesia (sobretudo na segunda parte, “Penélope”), esse se faz mais denso e presente no Cantares que é todo ele remissão a um tu. Em Cantares o eu poético é inflamado por uma outra voz, recebendo notícias de si pelo reverberar da voz de um outro sem nome mas prenhe na intensidade de uma troca, e o poema assim recebe as suas asas de um Anjo alheio e da voz de outros poetas. E o que lá era eu /eu; de mim /comigo, aqui é eu / tu; de mim / para ti / de ti / para mim.
No seu percurso, Cantares representa o canto de reencontro da poesia, após seis anos da publicação de Comigos de mim. A relativa lentidão da espera faz-se fervor quando a poesia vem, pois Cantares foi composto em menos de 2 meses; intensamente, às vezes três poemas no dia, compostos sempre durante o caminhar matinal.
Dentre as linhas mestras do livro, seus temas e modos de expressão, o caminhar é um dos principais. Em “Reencontro” , as vozes da poesia chegam pelas “ondas distantes, gorjear de árvores, meus próprios passos”, e a disposição dos versos compõe graficamente o desenho dos passos, o ritmo do andar na página. Como o pé ante pé, verso depois do verso, o ritmo dos poemas é também aproximado similarmente do movimento das ondas “que morrem na areia” e retornam e morrem e retornam, compondo o andamento de sua elocução. “Existe uma relação do andar com o caráter, a voz e a letra da pessoa”, escreveu Murilo Mendes em O Discpulo de Emaús. No caso de Cantares, esse caráter se manifesta como uma calma serenidade na dicção, sem sobressaltos, mas antes sintética e condensada, sobretudo nos poemas da primeira parte. Nos poemas de “Cantar de Amigos” o tom de gravidade é maior, pois passa-se do idílio à elegia e ao conto de louvor.
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1. Vaghe stelle dell’Orsa, io non credea / tornare ancor per uso a contemplarvi / sul paterno giardino scintillanti, /e ragionar con voi dalle finestre / di questo albergo ove abitai fanciullo /e delle gioie mie vide la fine” – são os primeiros versos do poema.
2. Cf.Jacques Roubaud, Les Troubadours. Anthologie bilingue, Éd. Seghers, Paris, 1971.
Continua amanhã

