Concluímos hoje a publicação deste ensaio sobre a colectãnea poética Cantares, de Rachel Gutiérrez. Marília Librandi Rocha, guia-nos com mão segura e sabedora pelos caminhos e pelas referências de quem nos ajuda a começar os sábados com os seus versos matinais.
Cantar de amigos
Os 14 poemas de “Cantar de Amigos” vêm apresentados em dois “interlúdios” (o primeiro de abertura, “Pássaro” e outro central “Berlim”), e onze poemas dedicados aos poetas: “Sappho”, “John Donne”, “Mário Quintana”, “Dylan Thomas”, “João Cabral de Melo Neto”, “Borges”, “Paul Celan”, “Joseph Brodsky”, “Fernando Pessoa”, “René Char” e “Yeats”, finalizando com o poema de Rilke. Se, na primeira parte, o tempo é o “Agora” da visitação que mesmo passada se reinventa presente, agora “todo o tempo é passado”. A voz lírica caminha não mais sobre os seus passos mas sobre os passos dos poetas passados, e o caminhar do livro faz-se também caminhos de leituras.
O interlúdio que dá início a essa série, “Pássaro”, re-engendra “no mais vasto útero” as palavras desses poetas. E começa com Sappho. Topos da poesia lírica, é aqui também a primeira, matriz e mãe da lírica dos onze poemas que seguem. Como uma caixinha de música o nome Safo vem carregado de todos os significados que o fez ressoar através dos séculos. Vivendo na últimas décadas do século VII e primeiras do VI a C (cerca de 600 a C); as lendas em
torno de sua suposta vida amorosa levou a que – “por volta de 1073 d.C, no tempo do Papa Gregório VII, livros contendo o que restara da obra de Safo foram mais uma vez, e desta vez bem demais, queimados em praça pública em Roma e Constantinopla” 4. Situação revivida nesse poema e indiciada n’ “os ventos negros / que destruíram versos, elegias, / palavras, ritmos, sons e melodias / da décima, entre as musas mensageira” – como a qualificou Platão em seu epigrama: “Nove são as Musas, dizem alguns. Quanta negligência! Eis aqui a décima: Safo de Lesbos.” (epigrama IX de Platão, trad. José Paulo Paes). Como poema de abertura dessa série, “Sappho” alegoriza a permanência da poesia lírica, enquanto fragmento e ruína 5, e que, na sua forma precária, persiste como fios tênues unindo o que passou ao que está passando. Em todos os poemas dessa série, o canto quer banir a morte, como no verso citado de Dylan Thomas, and death shall have no dominion, ou remetendo a “o sol inextinguível” de Brodsky. Como nos versos dedicados a Mário Quintana: “poeta, já não ressoam / teus passos nestas calçadas, / ressoam, sim, os teus versos”, é poesia-fênix: “que sempre morre e renasce”, mesmo diante do atroz assassinato que o interlúdio “Berlim” relembra. É assim que ainda “no escuro deste mundo” “brilham tristes” os versos da poesia de Celan, e os outros cantos.
A poesia em Cantares parte assim de uma vivência particular para alcançar o universal, e o caminho é do pessoal Rachel Gutiérrez ao impessoal – RG. Esses cantares são a sua marca. Cantar de uma voz lírica que pela poesia nela inscrita e por ela escrita torna-se cantares de muitos, um infinitivo. E assim, a impossível justaposição de singularidades intensas dá lugar ao registro e à gravação, o diferir-deslocamento fora do espaço-tempo da singularidade do afeto dá lugar e tempo à multiplicidade,6 .depois à generalidade, depois à universalidade, na poesia.6 O sentido da leitura desses poemas hoje estaria no modo como a sua elocução dá notícia de um tempo em que a poesia era vivida como o valor mais alto do canto, que aqui se alevanta diante das amarguras dominantes e ausências fundantes: “Vivemos mesmo mergulhadas numa espécie de mistério indecifrável, ou, como diria um querido amigo que já partiu, vivemos ‘num matagal ralo” (RG). Esse celebrar dos cantos tem no livro de Rachel um tom afirmativo, espécie de triunfo final pois se a vida neste mundo é mal segura, a poesia é exaltada enquanto valor de permanência diante do transitório (“espero que como na arte poética de Borges seja não como o rio (da vida) que apenas passa, mas como a arte, que pasa y queda” (RG) .
Essa é a verdade que anima Cantares – a transcendência do canto. Essa é a crença forte na poesia de Rachel Gutiérrez, a necessidade de um canto, que apanhe o canto que um canto antes, e o passe a outro; e de outros cantos, que com muitos outros cantos se cruzem, os fios de sol de seus cantos, para que a manhã, desde uma teia tênue, se vá tecendo, entre todos os cantos.
Podemos assim compreender melhor o porquê da escolha dos versos de René Char como epígrafe: os deuses estão na metáfora. Transportada por um lance súbito, a poesia alça-se a um além sem tutela – pois é através desse brusco afastamento que a poesia, como disse Rachel citando Brodsky, é projetada para muito longe pelos próprios impulsos das palavras.
E se a poesia alça, o prefácio cala-se e, devolvendo as asas que tomou de empréstimo, volta ao chão de onde partiu, pois, como sugeriu um dia Lawrence, melhor mesmo é que só venha muito após o livro publicado, para que, leitor e livro, a sós, elaborem o seu possível e sempre desejável enamoramento.
Les dieux sont dans la métaphore.
Happée par le brusque écart,
la poésie s’augmente
d’un au-delà sans tutelle.
René Char
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4 Álvaro A Antunes. Safo: tudo que restou, Minas Gerais, Interior Edições, 1987
5. Segundo consta, sua obra contaria com 13 mil versos agrupados em oito livros pelos eruditos de Alexandria, mas dela apenas restaram, na íntegra, dois únicos poemas, re-descobertos na Renascença, os fragmentos 1 e 31 (este último traduzido por Catulo, e transcrito e comentado por Longino em Do Sublime, séc I.d.C), até que em fins do XIX papiros foram encontrados numa aldeia egípcia de origem romana, no alto Nilo, com fragmentos de poemas recuperados em anos de trabalho para tirar do pó os versos dos poemas-canções.
6.6 Livre tradução de texto de Lyotard: “comment l’impossible juxtaposition de singularités intenses donne-t-elle lieu au registre et à l’enreistrement? Comment le différer-déplacement hors lieu-temps de la singularité d’affect donne-t-il lieu et temps à la multiplicité, puis à la generalité, puis à l’universalité, dans le concept,(…)? “Lyotard, Jean-François. “Duplicité des signes”. Économie Libidinale. Paris, Les editions de minuit, 1974, p.28.

