Capítulo vinte e nove
Tinham pedido ao senhor Fernando , que os fora buscar ao restaurante La Roca,que os deixasse no centro. A noite estava muito amena, era cedo e iriam a pé até ao hotel. Percorreram as poucas centenas de metros do novo passeio marítimo, a chamada «Promenade».
– Vens muito calado – dissera-lhe Cecília.
– Estou a pensar que fizemos muito bem em vir aqui passar estes dias.
– Sem dúvida. Oxalá o regresso ao inferno do dia a dia não te faça mal…
Subiram a pequena calçada junto do Hotel Torre Praia e do Parque de Campismo e retomaram a estrada. Cecília insistiu:
– Não dizes nada? Estás preocupado com o Alfredo?
António assentiu:
– Sim. O que terá ele a ver com isto, com a morte deste homem, do sargento? – e contou a Cecília o que recordava da conversa que tinham tido no “hospital”, enquanto esperavam o momento de entrar em acção. Alfredo chegara há meses de Moçambique. Saíra após a independência, em 25 de Junho e passado à disponibilidade. Frequentava o curso de especialização no Serviço de Cardiologia do Hospital de Santa Maria. António, mais de três décadas depois, tinha dificuldade em recordar os pormenores da conversa. Mas lembrava-se de Alfredo ter falado sobre crimes que tinham sido cometidos e que não podiam ficar impunes. Talvez o médico lhe quisesse contar mais alguma coisa, mas o Arnaldo viera chamá-los – queria que o acompanhssem na reunião que ia ter com o comandante da bateria de Oeiras.
«Crimes que não podiam ficar impunes» – se não fora esta a expressão, fora algo de equivalente.
Chegaram ao hotel e foram até ao salão.
Manuel estava sozinho numa mesa. Vendo-os entrar, levantou-se e convidou-os a sentarem-se:
– Estou no meu intervalo contratual. O que bebem?
..

