A ESTUPIDEZ É UM CÃO FIEL – 53 – por Sérgio Madeira

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Capítulo cinquenta  e três

Porto Santo, quarta-feira, 22 de Abril de 2009

Alfredo acabara por ficar mais tempo do que inicialmente previra. Partira quarta-feira à noite para Lisboa. Faria escala no Funchal, pois na quinta-feira de manhã seria o funeral de Manuel. Cecília e António tinham pedido que comprasse flores e as depusesse em nome do casal na campa do pianista.

Na terça-feira, tinham saído à noite, vindo a pé até ao centro,  vieram num passeio lento até ao centro  da  cidade. Em frente da antiga fábrica das Águas de Porto Santo, desceram uma pequena calçada junto do parque de campismo e do Hotel Torre Praia e puderam percorrer as poucas centenas de metros do passeio marítimo, a chamada «Promenade». Já em pleno centro, num edificio público de construção relativamente recente, onde funcionava o centro de congressos e de exposições, havia também uma moderna e ampla sala de cinema, desactivada nessa noite. Estava patente uma exposição de fotografias – alfaias agrícolas usadas na ilha. Visitaram-na lentamente, parando junto de cada trabalho. Estavam a comentar uma das fotos, quando soou uma voz:

– Boa noite, minha senhora, meus senhores…..,  – Voltaram-se – o tenente Fragoso com traje civil não parecia o mesmo.. Ao seu lado estava uma rapariga morena e bonita – Elisabete, a minha mulher..Foram com Cecília até ao café que funcionava num pequeno edifício contíguo ao do edifício e com comunicação pelo interior. Só uma mesa estava ocupada. O cliente do hotel que na véspera dera cavalheirescamente passagem a Cecília. Sentado na sua cadeira de rodas, manipulava um computador portátil. Ergueu os olhos quando entraram e fez um aceno, cumprimentando.

Após se terem sentado e pedido os cafés, como era inevitável, falaram do tiroteio junto da piscina do hotel e da morte de Manuel.  E Fragoso disse;- Já se sabe que oficial moçambicano era o brigadeiro-general Afonso Nachawi…

– Nachawi não era o nome do agente da PIDE/DGS, o do massacre de Xuvalu?

– Era esse o nome, com efeito, parece que se tratava de um irmão…

Cecília disse em voz baixa:

– Aquele homem está a ouvir ou a tentar ouvir a nossa conversa.

Quando os rostos se voltaram para ele, o homem baixou os olhos e pareceu inteiramente concentrado no monitor.

 

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