ANTÓNIO JOSÉ SARAIVA, “O Discurso Engenhoso. Ensaios sobre Vieira” – uma leitura por Manuel Simões
carlosloures
Mais um excelente texto do argonauta Manuel Simões. Com algumas variantes, foi anteriormente publicado na revista literária “Rassegna Iberistica” (Veneza), de Junho de 1997.
Constituindo o 13°. volume das “Obras de António José Saraiva” que a Ed. Gradiva tem vindo a apresentar, revistas pelo Autor por vezes de forma radical em relação à versão original, “O Discurso Engenhoso” (Lisboa, 1996) apresenta-se como um conjunto de quatro ensaios sobre Vieira inseridos em diversas publicações e correspondentes aos anos de 1970 e 1971. Constitui excepção o último (“O ‘conceito’ segundo Baltasar Gracián e Matteo Peregrini ou duas concepções seiscentistas do discurso”), que corresponde à tradução brasileira de1980, com as adaptações necessárias, de um original francês que não foi possível recuperar, dado o falecimento do Autor.
A parte mais consistente do volume é constituída pelo ensaio “As quatro fontes do discurso engenhoso nos sermões do padre António Vieira”, onde A.J. Saraiva se propõe estudar a textura do discurso engenhoso do grande orador sagrado, analisando progressivamente as palavras, as imagens, as proporções e o texto. Com efeito, um dos processos mais evidentes da oratória barroca de Vieira consiste no valor concedido à palavra, examinada de um ponto de vista lexicológico que compreende o amplo recurso à etimologia, muitas vezes à etimologia popular. Por outro lado, partindo o seu discurso de um “conceito predicável” extraído da Sagrada Escritura, é importante sublinhar a conhecida posição do jesuíta, tornada explicita no “Sermão de Nossa Senhora do Ó”, segundo a qual «uma das maiores excelências das Escrituras Divinas é não haver nelas nem palavra nem sílaba, nem ainda uma letra que seja supérflua ou careça de mistério». Daqui se infere que a poética vieiriana se afirma a partir de uma exegese linguística e mítica do texto sagrado, que, como é inevitável, passa frequentemente por um processo de re-semantização ou de multiplicação de significados, o que contraria a preocupação teórica do orador no sentido «de estabelecer para cada palavra o sentido que lhe corresponde exactamente, evitando a ambiguidade e a polivalência». Exemplo significativo é a interpretação, por vezes cabalista, de certos elementos da palavra, processo a que o estudioso chama «fazer a anatomia da palavra», em que se pode inserir o famoso enigma linguístico, aliás proposto pelo padre José de Anchieta e depois recuperado por vários autores: «E, para descrever o estado selvagem em que vivem os índios da Amazónia, Vieira faz notar que a língua deles não possui as letras f, l e r, porque não têm ‘fé’ nem ‘lei’, nem ‘rei’».
Estes diferentes processos voltam a ser considerados, de forma global, no ensaio “O discursoengenhoso no ‘Sermão da Sexagésima’” , onde o estudioso examina particularmente as “circunstâncias” ou condições funcionais que devem informar a arte de pregar, tal como são preconizadas no famoso Sermão programático: a pessoa do pregador, que deve apontar para a acção; o estilo, ordenado e harmonioso, contraposto ao dos pregadores “cultos”, isto é, os que «constroem os seus sermões sobre oposições de palavras, como num jogo de xadrez»; a matéria do sermão; a ciência ou doutrina do pregador, parte onde é legível a controversa questão da utilização do texto sagrado, que não devia servir como ornamento de figuras ou fórmulas onde encaixar os “conceitos”; e finalmente a voz do pregador, cuja funcionalidade se liga ao tipo de auditório e à exigência retórica de persuadir.
Mas é a palavra o elemento nuclear a partir do qual se organiza a arquitectura textual do sermão, com a singularidade da amplificação das associações significativas através de um método misto porque, no seu discurso, Vieira ora parte do significante ora do significado, rompendo, deste modo, a unidade do signo linguístico, como acentua A.J. Saraiva: «os signos não são para ele o que esta palavra significa na linguística actual. São antes manifestações visíveis de verdades escondidas, e não há uma medida comum entre as palavras da Bíblia e a palavra de Deus. É necessário arrancar o segredo desta palavra à matéria onde ela se esconde». E é precisamente nesta relação que o estudioso enquadra o “discurso engenhoso”, observando com argúcia que, neste tipo de discurso, os signos, porque decompostos de modo audaz, modelados de acordo com as necessidades contextuais, gozam da autonomia indispensável de forma a permitir a associação com outras palavras, à semelhança do que se passa com os elementos da composição musical ou geométrica. Deste modo se explicam as frequentes extrapolações efectuadas por Vieira, conduzidas pela exigência de dar forma a crenças, profecias, sonhos ou simples intuições, precisamente porque, uma vez que «os sentidos da palavra absoluta são infinitos e que cada palavra pode dizer tudo, o discurso engenhoso liberta a palavra da disciplina lógica e torna-a disponível para a pura criação literária». Daqui se infere que o discurso “engenhoso” se opõe necessariamente ao discurso “clássico”, lógico e racional; com as suas digressões, desvios e disquisições etimológicas e analógicas, conduz muitas vezes o orador para zonas textuais que se afastam do primitivo horizonte de referência.