António José Saraiva, “A Tertúlia Ocidental. Estudos sobre Antero de Quental, Oliveira Martins, Eça de Queiroz e outros” – uma leitura de Manuel Simões

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Não existe uma tipologia definida para os textos desta rubrica. A transcrição ipsis verbis das sinopses fornecidas pela editora, os verbetes de dicionário temático. como é o caso do «Dicionário Bibliográfico das Origens do Pensamento Social em Portugal», de José Brandão, ou os artigos e reportagens de Clara Castilho, dando-nos conta do que se passa em sessões de lançamento, são formas pelas quais temos chamado a atenção para os livros. Hoje, apresentamos um estudo de Manuel Simões que incide sobre uma obra de que aqui falámos através de um dos verbetes do Dicionário Bibliográfico – referimo-nos  ao livro de António José Saraiva – A Tertúlia Ocidental. Estudos sobre Antero de Quental, Oliveira Martins, Eça de Queiroz e outros. Lembramos que o argonauta Manuel Simões, professor jubilado de Língua e Literatura Portuguesa na Universidade Cà Foscari, de Veneza, colaborador da revista «Colóquio/Letras» e pertence à redacção  de diversas revistas literárias, entre elas a «Rassegna Iberistica» (Veneza), onde este estudo foi publicado pela primeira vez.

Já autor de importantes estudos sobre as principais figuras da “geração de 70”, designadamente o volume  “As ideias de Eça de Queiroz” (1945), três ensaios sobre Oliveira Martins (“Para a História da Cultura em Portugal”, vol. I, 1961) e uma análise de conjunto ainda a propósito do historiador e romancista (“Perspectiva da Literatura Portuguesa do Séc. XIX”, vol. I, 1947), A. J. Saraiva apresenta aqui (Lisboa, Gradiva, 1990) o produto de uma releitura da obra dos grandes animadores da vida cultural portuguesa nos três últimos decénios do século XIX, sem transcurar uma atenção pertinente às relações que intercorreram entre os componentes do grupo que designa como «tertúlia ocidental», título que justifica «porque o seu encontro se dá na linha ‘onde a terra acaba e o mar começa’, no ocidente da Península, ora em Coimbra, ora em Lisboa, ora no Porto, cidades onde se reuniu o grupo que ficou sendo conhecido por ‘o Cenáculo’ e que assumiu várias metamorfoses, a última das quais foi a dos ‘Vencidos da Vida’» (p. 14). Os primeiros capítulos, de facto, estão marcados pela segunda perspectiva. O autor pode, de passagem, exprimir um parecer, deixar uma opinião, mas o que parece mais interessar A. J. Saraiva é mostrar o processo dialógico que condiciona a génese e evolução das obras dos diversos autores. Basta ver, por exemplo, o caso de “Portugal e o Socialismo”, de Oliveira Martins, e o que tal obra ficou a dever à relação epistolar com Alexandre Herculano e com Antero de Quental. À medida que o estudo avança, porém, o discurso torna-se mais denso e é evidente a tentativa de aprofundar a análise das obras, sobretudo de Antero e de Oliveira Martins.

Com efeito, dos dezasseis capítulos que compõem o volume, seis referem-se exclusivamente a Antero, três são totalmente dedicados a Oliveira Martins, quatro dizem respeito ao grupo, voltando a incluir as duas figuras de maior vulto, um (VI – «O rompimento») é dedicado à questão das relações tempestuosas entre Antero e Teófilo Braga, outro (XV -«O herói e a ocasião») põe em relevo aspectos contrastantes entre Antero e Oliveira Martins, e apenas o capítulo XIV («O manto da fantasia») é consagrado a Eça de Queiroz, tentando estabelecer os traços distintivos da estética queiroziana e observar o pensamento do autor de “Os Maias” no âmbito da geração a que pertenceu. A este respeito, e como vem sendo hábito, A. J. Saraiva faz uma revisão do que em 1945 publicou no estudo “As ideias de Eça de Queiroz”, «em que se partia do princípio de que Eça de Queiroz era um escritor de ideias, mas só de certas ideias. De facto, o lento desenvolvimento da mentalidade portuguesa tornava ainda actual em 1945 a caricatura que Eça fez da nossa sociedade em “As Farpas”, “O Crime do Padre Amaro” e “O Primo Basílio”, obras que continuavam vivas graças à extraordinária arte do escritor» (p. 157). O estudioso tem toda a razão quando afirma que a perspectiva de então era a de consolidar o mito revolucionário  e progressista dos homens da «geração de 70» e que, deste modo, seguiu a opinião generalizada. Todavia, parece-me demasiado radical, esquemática e certamente limitativa a sua visão hodierna, ao liquidar, creio que apressadamente, a obra queiroziana deste modo: «Hoje as ideias de Eça de Queiroz […] aparecem-nos principalmente como temas de arte, tal como na “Correspondência de Fradique Mendes” são pretextos para cartas» (p. 157). A revisão sumária comenta-se por si própria e faz parte de um grupo de observações polémicas, por vezes contraditórias, mas sempre surpreendentes. Logo no “Intróito”, apresentando, em grandes linhas, uma síntese do que trata o volume, A. J. Saraiva avança a opinião, relativamente ao grupo, de que «a república foi o fruto que eles não desejaram,mas que a eles se deve, como se lhes deve também o sistema corporativo e socializante intentado pelo ‘Estado Novo’» (p. 14). A última parte deste fragmento é desenvolvida nos capítulos sobre Oliveira Martins e deve entender-se como mais uma “provocação” a juntar às recentes posições do conhecido estudioso sobre matéria que envolve a filosofia do poder instituído pelo chamado “Estado Novo”; quanto à primeira, que merecia maior desenvolvimento, tendo em conta a evolução do grupo, é porém imediatamente desmentida no cap. I com a observação peremptória: «Eram todos republicanos» (p. 17). A mesma indecisão se pode notar nos capítulos XI (“Os sonetos de Antero”) e XII (“Evolução do pensamento de Antero”), onde o Autor apresenta a síntese de uma releitura dos sonetos anterianos, pondo em evidência a função primordial das emoções contra o afluir das ideias. Os sonetos são motivados, segundo A. J. Saraiva, «não por ideias, mas por emoções» (p.127), isto é, por «emoções, mas não pensamentos» (p. 128), leitura que me parece mais aguda e de muito maior densidade crítica quando resume, no final do cap. XII, esta parte do corpus poético de Antero: «Os sonetos documentam o percurso em busca do sentido perdido da vida» (p. 135). E ainda sobre a poesia anteriana, deve referir-se a nova interpretação do famoso soneto “Mors-Amor”, ao qual é dedicado o capítulo X (pp. 115-120). A atenção conferida à correspondência entre os vários membros do grupo conduz o estudioso para um inesperado biografismo, “interpretando” a composição a partir de aspectos acidentais, contingentes e biográficos, quando se dispõe da expressão admirável do próprio Antero, que define a sua perspectiva em termos de «autobiografia de um pensamento».

Não obstante estas observações, “A Tertúlia Ocidental” é um livro deveras estimulante, não só pela notável cópia de notícias recolhidas a partir da correspondência entre os vários membros de uma geração (de 1870 aos “Vencidos da Vida”), como por algumas sínteses de segura agudeza, especialmente as que dizem respeito a Oliveira Martins (cap. VIII, “Liberdade e democracia segundo Oliveira Martins” e cap. IX, “Oliveira Martins e a História”). A este propósito é justo salientar o relevo concedido pelo estudioso a obras como a “História de Portugal”, que considera um dos três grandes livros sobre Portugal, a par de “Os Lusíadas”, de Luís de Camões, e de “Mensagem”, de Fernando Pessoa; a “História da República Romana” («uma das mais notáveis histórias romanas que se produziram na Europa», p. 97); a “História da Civilização Ibérica”, constituída por «ensaios de ‘filosofia social’ sobre as origens, formação e instituições da ‘Espanha’.» (p. 104), intercalados por biografias – recordem-se as de Colombo, Carlos V, Ignacio de Loyola e Camões – «em que o retrato psicológico dos heróis considerados tem o lugar principal» (pp. 104-105); e o “Portugal Contemporâneo”, onde se faz a história do liberalismo português. Se não existissem outras razões de mérito, e há-as com efeito, bastaria o citado cap. IX como agitador da consciência do leitor português, chamando a atenção para as obras fundamentais de um autor hoje quase esquecido e do qual talvez não se tenha feito ainda a exegese crítica que certamente merece.

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