Pe. Luís Mendes, vice-reitor – Culpado ou vítima? – por Mário de Oliveira
carlosloures
Comentário teológico
“Culpado e condenado a 10 anos de prisão”. Eis a sentença que acaba de ditar o Tribunal do Fundão. O Pe. Luís Mendes, 38 anos a completar dia 22 deste mês de Dezembro, nega todas as 19 acusações de abuso sexual que contra ele fazem seis adolescentes, cinco dos quais, seminaristas ao seu cuidado no seminário de Fundão, e o outro, um seu aluno no Externato Nossa Senhora dos Remédios. A acusação é grave. E a condenação do Tribunal só não é de 25 anos de prisão, porque foi tido em conta o chamado “cúmulo jurídico”. O Pe. Luís Mendes, entretanto, não mostrou qualquer arrependimento em Tribunal. E declarou que, em devido tempo, certamente, depois do caso transitar em julgado, explicará tudo, tim-tim-por-tim-tim. Só não se sabe, se explica como os abusos aconteceram, ou se como foram “inventados” pelos adolescentes, como agora garante, sem, contudo, apresentar quaisquer provas. Pelo menos, que se conheçam.
A situação é deveras embaraçosa para ele, para a Diocese da Guarda e, sobretudo, para os adolescentes. Dificilmente, o futuro destes rapazes será como o dos outros seus colegas, qualquer que venha a ser a decisão do Tribunal de recurso. Serão sempre “aqueles” que foram abusados por um padre, ou aqueles que forjaram abusos, só para se vingarem do padre. E o futuro do Pe. Luís Mendes também nunca mais ficará de todo “limpo”, mesmo que o Tribunal de recurso venha, porventura, a ditar a sua absolvição, por demais improvável. Pelo que o recurso vale sobretudo como uma forma jurídica de ganhar tempo, que acabará, ao fim e ao cabo, por penalizar ainda mais os adolescentes que se dizem abusados e o próprio padre que negou todos os abusos perante o Tribunal do Fundão.
Culpado, ou vítima? A pergunta justifica-se, independentemente da decisão do Tribunal de recurso. Remete-nos para o antes dos factos em questão e ainda em fase de julgamento. Concretamente, para a existência de seminários em regime de internato e para a existência de clérigos sacerdotes, em vez de presbíteros e bispos da Igreja, simplesmente. Não houvesse clérigos sacerdotes, e também não haveria seminários com internato, para os formar/formatar. Muito menos, haveria essa perversa e sádica Lei do celibato obrigatório para os sacerdotes. Porque, só por si, a ordenação de Presbíteros e de Bispos, àqueles (as mulheres continuam impedidas de aceder a este ministério ordenado, outra aberração do cristianismo católico romano) que aceitam assumir e viver esse ministério entre os demais e com os demais, jamais os retira da sua condição de seres humanos. Pelo contrário, confirma-os mais e mais nessa sua condição. Como tal, não lhes impõe, à partida, o celibato, como a não impõe a nenhuns outros seres humanos. Só mesmo a existência de clérigos sacerdotes – coisa de todo inumana e obscena – é que retira aos Presbíteros e aos Bispos a liberdade de decidirem como querem viver a sua sexualidade, dentro da dimensão do Amor e da Liberdade, a única que nos faz verdadeiramente seres humanos.
Neste sentido, o Pe. Luís Mendes, Presbítero da Igreja da Guarda, nunca teria sido roubado da sua condição de ser humano, como foi, o que aconteceu, quando a instituição católica romana que o ordenou Presbítero, o “elevou” (na verdade, reduziu) à condição de clérigo sacerdote. E, como ser humano maduro e responsável (= Presbítero), faria as escolhas que lhe ditasse a sua própria consciência. Dificilmente, viria a ser “pedófilo”, no sentido que, hoje, o conceito passou a ter, de comportamento desviante e abusivo de menores. E, se, mesmo assim, os tivesse, não seria objecto de notícia e de escândalo, como está a ser. O seu caso seria tratado exactamente como o de outros “pedófilos” que não são clérigos sacerdotes. Casos que necessitam, sobretudo, de cuidados especiais de acompanhamento e de tratamento clínicos, mais do que de prisão. Daí a pergunta do título: Culpado ou vítima? Manifestamente, mesmo culpado, o Pe. Luís Mendes é vítima da instituição que o ordenou presbítero e, nessa mesma hora, o transformou em clérigo sacerdote, escravo da Lei do celibato obrigatório! Pelo que, com ele, deveria estar no banco dos réus, a instituição católica romana que, há séculos, produz impunemente “eunucos” clérigos sacerdotes, para os oferecer em sacrifício ao seu Deus, o Ídolo dos ídolos, o Poder Financeiro! Coisa mais que obscena!