Maria Ludmila
Ludmila. Mila. Milai.Milay.
Foi assim que preferiu ser chamada. Soava mais doce, mais querido, mais sensual. Muito mais chique.
Nome de gata, de pêlo macio, pronto a ser acariciada por qualquer mão habilitada para o efeito. Leia-se: mão forrada de notas.
Milay provou o gosto do dinheiro e, conscientemente, decidiu-se por esta vida. Nenhum curso, nenhum outro emprego que poderia dar tal conforto.
Um emprego como outro qualquer, que, para o sucesso , implica trabalho e investimento.
Um guarda roupa esmerado, de senhora, corte fino, tecido caro, o saia e casaco clássico, a calça de lã impecável, a sedosas blusas, os tops acetinados, uma colecção infindável de sapatos impecáveis. E um lote apreciável de joalheria clássica a condizer. Um investimento avultado, na ordem de algumas dezenas de milhar de euros, para que se possa vender ao mais requintado público.
Horas de preparação e leitura, domínio de três línguas estrangeiras, conhecimentos acima da média de economia política, relações internacionais, literatura diversa. Muito estudo e preparação, para se encontrar habilitada a frequentar a excelência de qualquer ambiente.
Esforço diário, hábitos duramente adquiridos de madrugar para treinar, tonificar, mimar, cuidar de um corpo que se quer sem imperfeições, abdicando de doces prazeres de boca, em prol de prazeres maiores, propíciados a homens e mulheres dispostos a pagar por eles.
Duas portas de armário, na suite de um apartamento impecavelmente limpo e decorado, num condomínio familiar, dedicadas a artefactos diversos, acondicionados em caixas de veludo, junto a cruzetas alinhadas com as mais refinadas e exuberantes fantasias.
Vista por fora, uma empresária séria e requintada. Do quê, não é possível perceber, porque qualquer que seja a área de negócio que lhe atribuam, sobre ela falará com propriedade, sem margem para dúvidas do sucesso implícito da sua empresa.
RoyalMilay-Consulting, assim consta da factura, do recibo, do cartão, de todos os documentos legais e burocráticos que dão suporte a uma empresa, uma coroa dourada no canto das folhas de papel texturado, de alta gramagem. Sem qualquer publicidade, em nenhum meio conhecido de comunicação ou promoção. Com sede num local fino da costa do Mediterrâneo. Que vende um corpo escultural, condimentado ao gosto do cliente. Ao serviço dos mais “exquisite”, dos mais “raffinné”, da nata dos poderosos que anseiem por ser escravos dos seus altos honorários.
O custo maior do seu investimento foi, no entanto, precisar de se despir de todo o amor e valores que a abrigaram nos primeiros vinte anos da sua vida, queimar os despojos.
Num gesto de desespero, deitou as cinzas ao vento. Quando se encontra aflita e só, mesmo no meio de muita gente, em qualquer lugar do mundo, ao inspirar uma brisa, sabe que entram em si milésimas de mole de partículas da sua razão de querer continuar viva.

