A questão da Ucrânia é cada vez mais inquietante. As informações que nos chegam dão-nos a ideia de um povo revoltado contra o seu governo, e procurando olhar mais de perto ficamos com a ideia de um país muito dividido. As razões serão várias, mas, sendo elas de raiz religiosa ou política, serão bastante profundas. A influência russa é óbvia, mas também a exercida pelo ocidente tem peso nos acontecimentos. Também aqui, antes de tomar partido, será importante ponderar as razões e os antecedentes do conflito.
No caso da Ucrânia, o peso da história é visível. No seculo XIII, as invasões mongóis determinaram o fim do principado de Kiev, e aceleraram o processo de separação das nações eslavas. Nos séculos seguintes, a Lituânia e a Polónia exerceram forte predominância na Europa Oriental, empurrando para leste os Tártaros. Chegaram a formar um estado único, após a união de Lublin (1569). A fundação da Igreja Uniata ucraniana, de obediência a Roma, acontece sob pressão da contra-reforma, que tomou formas muito duras na região. Os camponeses ucranianos na maioria, tornaram-se então servos da aristocracia polaca. Ressurge o Patriarcado ortodoxo de Kiev. Nos séculos XVII e XVII as colónias militares formadas na região, guarnecidas sobretudo com fugitivos, sobretudo na região do rio Dniepre, começaram a tomar autonomia, e os cossacos tomam o seu lugar na história. Com o czar Pedro I, e sobretudo após a guerra russo-sueca, a Rússia toma influência na região, consolidada por Catarina a Grande. No século XIX opera-se um ressurgimento ucraniano sob a influência da Irmandade Cyril e Metódio, de cariz romântico, semelhante ao ocorrido noutros pontos da Europa. No século XX, a Ucrânia faz parte da URSS, após a Revolução de 1917, e as guerras que lhe sucederam. Durante a Segunda Guerra Mundial, sofreu duras provações com a invasão nazi. Recuperou a independência após a dissolução da URSS, mas há que ter em conta que grande parte da população tem ascendência russa, usando mesmo o russo como língua materna, e não o ucraniano.
Estes antecedentes tornam evidente que a Ucrânia está a ser palco de um conflito leste-oeste, em moldes bastante semelhantes aos do passado recente. As legítimas aspirações dos ucranianos não devem ser aproveitadas para favorecer um dos lados. Há que reconhecer ser a absoluta inanidade que é aceitar que esse conflito tenha algum interesse, a não ser para lóbis militaristas e fascistas de qualquer lado. Para a Ucrânia, para os ucranianos, a guerra fria não interessa em nada. A sua continuação poderá levar a consolidar as suas divisões, com certeza que não desejadas pela maioria dos seus cidadãos.


