Site icon A Viagem dos Argonautas

EDITORIAL – “Pela santa Liberdade, triunfar ou perecer”.

ÉImagem2 uma afirmação que temos feito recorrentemente – a liberdade de expressão pouco vale sem a igualdade de direitos e de oportunidades e, sobretudo, sem a fraternidade, ou seja, a solidariedade social que proteja os mais vulneráveis do ponto de vista económico, garantindo-lhes as condições de vida digna a que todos os seres humanos têm direito – a liberdade de expressão, o direito de associação e de manifestação – os chamados direitos fundamentais. Quem tem fome, não é livre. É à luz desta complementaridade entre os três conceitos que herdámos da grande Revolução de 1789, que devem ser apreciados os défices democráticos e valorizadas algumas democracias.

Sobretudo na América Latina, repetem-se os casos em que os povos são obrigados a optar entre a liberdade de falar e a liberdade de comer e de ter um tecto. Para falar só nas últimas décadas, os casos de Cuba, do Chile e, agora, da Venezuela, são exemplares. Os americanos herdaram a tradição política europeia; os americanos são europeus transplantados. Toda a carga romântica que fluiu entre os palcos da ópera e a vida real, conduzindo à construção de impérios, eclodiu nas Américas com colonos e crioulos ambiciosos a construir nações sob o modelo europeu, ao mesmo tempo que destruíam as nações autênticas que à sua chegada existiam. As independências americanas significaram a expulsão dos europeus, mas não significaram a verdadeira libertação de índios e de escravos africanos.

A «santa Liberdade» de que fala o hino da Maria da Fonte, pela qual merece a pena «perecer», é a liberdade de clamar contra o poder político, de poder enterrar os mortos nos adros das igrejas… É uma liberdade que nós temos e que, pelos vistos, os venezuelanos não têm. Há venezuelanos que aspiram a uma liberdade plena que inclua a liberdade de expressão e de associação, há os que preferem a protecção social que a «Revolução Bolivariana» lhes garante. Há os que aproveitam a tensão entre estas duas forças para introduzir a luta por interesses que nada têm a ver com qualquer ideia de liberdade.

A situação na Venezuela deve ser avaliada com isenção. Maduro é um demagogo, mas tem razões. Alguns dos seus opositores têm razões válidas, fundadas nos valores da Democracia. A Razão, o equilíbrio entre o direito de falar e o de comer, tem de ser encontrado num espírito de fraternidade que parece longe de ser alcançado.

Exit mobile version