Edvard Munch, o grande pintor norueguês, precursor do expressionismo alemão, nasceu no dia 12 de Dezembro de 1863. Faz hoje 148 anos. O seu quadro “O grito” tem sido utilizado de mil e uma maneiras, servindo de suporte a teses que talvez nada tenham a ver com as motivações que levaram Munch a criá-lo e que parece terem sido de natureza passional – o grito de dor por um amor frustrado. Hoje, soltamo-lo nós, em homenagem a Munch e pelo amor frustrado a uma democracia que, dia após dia, nos trai e se desacredita.
Formalmente, é uma democracia o regime em que vivemos – direito de expressão, de associação, de reunião, eleições livres… Muitos dos que antes da Revolução de Abril conspiravam contra a ditadura, era isto que queriam – não lutavam pelo fim das assimetrias sociais, por exemplo – apenas pelos direitos enunciados – expressão, associação, reunião… Sobretudo a esses, parecerá um exagero comparar a democracia que temos ao fascismo que tivemos. E é, de facto, um exagero.
Mas é também uma maneira provocatória de exprimir o sentimento de revolta que nos assalta ao ver que este sistema democrático, teoricamente emanado da vontade popular, expresso no voto livre dos cidadãos, nos proporciona uma sociedade tão tacanha e uma classe política mais corrupta do que a do antigo regime salazarista. É um exagero assumido, com o qual procuramos chamar a atenção para aquilo que na prática se manteve inalterável – a injustiça social, as grandes assimetrias culturais. A prevalência do ter sobre o ser.
A liberdade de associação e reunião permite que o cidadão se filie em partidos e que constitua partidos; que milite em sindicatos. E que vote em quem quer. Todos sabemos como uma comunicação social controlada pelos grupos económicos se comporta – media e opinion makers modelam a opinião pública. As eleições são livres? São. Tão livres quanto um cão amestrado.
A grande diferença está na liberdade de expressão. Como dizia há tempos Carlos Antunes numa intervenção pública, antes da Internet só os vencedores tinham direito a emitir a sua versão dos factos. Agora, nós, os vencidos, também podemos contar como foi e como está a ser. Futuros historiadores terão como fontes primárias, não só as versões oficiais, como também as nossas, as dos que perderam esta guerra, permitindo que a corrupção se instalasse e que gente rasteira, sem ideais e sem dimensão ética, nos governe.
Fraca consolação, no entanto, para quem vive estes tempos e assiste ao degradante espectáculo de ter como governantes e como seus principais opositores, gente que encara a política como um negócio, aceita a perda de soberania, e como qualquer criado, procuram agradar aos patrões. Ou melhor, aos mandatários dos patrões – uma alemã que só diz disparates (Mário Soares dixit) e um francês de uma superficialidade intelectual confrangedora. Há vendedores de enciclopédias mais convincentes. E há ainda um Durão Barroso que com ar de quem lê as tábuas da lei, papagueia as vulgaridades que os chefes emitem – ao menos podia usar uma libré!
Um grito ou um uivo prolongado! Parabéns Munch.


Não há exagero nenhum no que dizes. Tirando um Salazar tacanho que precisava duma polícia política para dominar a dissidência e que continuava convencido na manutenção de colónias, o que se passa hoje goza apenas da mudança dos tempos, ou seja, os políticos não são menos tacanhos – porventura alguns serão ainda mais, atendendo à época em que vivem. Só te esqueceste de carregar nas cores do Durão Barrosod, de dizeres que ele se baba todo junto dessas personagens do nosso pesadelo mundial.