Diário de bordo de 12 de Novembro de 2011

 

 

 

Edvard Munch, o grande pintor norueguês, precursor do expressionismo alemão, nasceu no dia 12 de Dezembro de 1863. Faz hoje 148 anos. O seu quadro “O grito” tem sido utilizado de mil  e uma maneiras, servindo de suporte a teses que talvez nada tenham a ver com as motivações que levaram Munch a criá-lo e que parece terem sido de natureza passional –  o grito de dor por um amor frustrado. Hoje, soltamo-lo nós, em homenagem a Munch e pelo amor frustrado a uma democracia que, dia após dia, nos trai e se desacredita.

 

Formalmente, é uma democracia o regime em que vivemos – direito de expressão, de associação, de reunião, eleições livres…  Muitos dos que antes da Revolução de Abril conspiravam contra a ditadura, era isto que queriam – não lutavam pelo fim das assimetrias sociais, por exemplo – apenas pelos direitos enunciados – expressão, associação, reunião… Sobretudo a esses, parecerá um exagero comparar a democracia que temos ao fascismo que tivemos. E é, de facto, um exagero.

 

Mas é também uma maneira provocatória de exprimir o sentimento de revolta que nos assalta ao ver que este sistema democrático, teoricamente emanado da vontade popular, expresso no voto livre dos cidadãos, nos proporciona uma sociedade tão tacanha e uma classe política mais corrupta do que a do antigo regime salazarista. É um exagero assumido, com o qual procuramos chamar a atenção para aquilo que na prática se manteve inalterável – a injustiça social, as grandes assimetrias culturais. A prevalência do ter sobre o ser.

 

A liberdade de associação e reunião permite que o cidadão se filie em partidos e que constitua partidos; que milite em sindicatos. E que vote em quem quer. Todos sabemos como uma comunicação social controlada pelos grupos económicos se comporta – media e opinion makers modelam a opinião pública. As eleições são livres? São. Tão livres quanto um cão amestrado.

 

A grande diferença está na liberdade de expressão. Como dizia há tempos Carlos Antunes numa intervenção pública, antes da Internet só os vencedores tinham direito a emitir a sua versão dos factos. Agora, nós, os vencidos, também podemos contar como foi e como está a ser. Futuros historiadores terão como fontes primárias, não só as versões oficiais, como também as nossas, as dos que perderam esta guerra, permitindo que a corrupção se instalasse e que gente rasteira, sem ideais e sem dimensão ética, nos governe.

 

Fraca consolação, no entanto, para quem vive estes tempos e assiste ao degradante espectáculo de ter como governantes e como seus principais opositores, gente que encara a política como um negócio, aceita a perda de soberania, e como qualquer criado, procuram agradar aos patrões. Ou melhor, aos mandatários dos patrões – uma alemã que só diz disparates (Mário Soares dixit) e um francês de uma superficialidade intelectual confrangedora. Há vendedores de enciclopédias mais convincentes. E há ainda um Durão Barroso que com ar de quem lê as tábuas da lei, papagueia as vulgaridades que os chefes emitem – ao menos podia usar uma libré!

 

Um grito ou um uivo prolongado! Parabéns Munch.

1 Comment

  1. Não há exagero nenhum no que dizes. Tirando um Salazar tacanho que precisava duma polícia política para dominar a dissidência e que continuava convencido na manutenção de colónias, o que se passa hoje goza apenas da mudança dos tempos, ou seja, os políticos não são menos tacanhos – porventura alguns serão ainda mais, atendendo à época em que vivem. Só te esqueceste de carregar nas cores do Durão Barrosod, de dizeres que ele se baba todo junto dessas personagens do nosso pesadelo mundial.

Leave a Reply