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O MEU BAR – por CARLA ROMUALDO

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Quando saí de casa dos meus pais mudei-me para um desses apartamentos cujos proprietários, acomodados à ideia de manter o espaço em permanente arrendamento a jovens pouco endinheirados, desprezam a ideia de fazer qualquer tipo de obra de manutenção. O fogão da década de 1970, a cama carunchosa, os trastes velhos que sucessivos inquilinos foram deixando para trás, tudo se vai acumulando na casa, num processo de estratificação que tende a degradar mais do que a enriquecer o espaço.

 

De maneira que quando eu cheguei àquele T1 no Bonfim, herdei, na condição de arrendatária, um fogão a gás cujos bicos se entupiam de cada vez que eu tentava usá-lo, uma casa de banho revestida com uns azulejos de um invulgar, e particularmente aterrador, tom de castanho, e, entre outros trastes, um colossal móvel bar, que ocupava boa parte da sala. Era um desses móveis que estiveram na moda nos anos 70, e que deve ter feito furor na casa da minha senhoria até essa moda passar e ela se fartar dele. Como boa senhoria, dispunha de um equilibrado sistema de reaproveitamento do seu lixo que consistia em despachá-lo para as casas que tinha arrendado aos pobres. E foi assim que eu ganhei um bar.

Ora, nada há de mais útil na casa de uma abstémia do que um móvel bar, que pese mais de 50 quilos e ocupe boa parte da sala. Eu lá tentei disfarçar o bicho usando-o como estante, espalhando livros e fotografias pelos recantos onde deveria haver garrafas e copos, mas a coisa era indisfarçável. O bicho parecia saído de uma cena do Dallas, e de cada vez que eu entrava na sala imaginava por instantes que o próprio J.R. Ewing, de chapéu de cowboy e pulseira de ouro a cintilar, me ofereceria um drink. Eu comia à sombra do bar, lia à sombra do bar, recebia os amigos à sombra do bar, o raio do bar instalou-se na minha vida até eu não me dar conta da sua presença a não ser quando alguém entrava pela primeira vez lá em casa e apanhava um susto nada mais chegar à sala.

Ninguém gostava do bar, por mais diplomáticos que fossem os comentários, e todos se perguntavam porque razão a senhoria não o deitava fora. Não o fazia porque gostava de anunciar que tinha para alugar um T1 mobilado, e 80% da mobília consistia naquele bar.

Certo dia, quando fui ver quem tocava à campainha, deparei-me com uma mulher vestida apenas com uma camisa de dormir muito curta e muito provocante, descalça e com ar de quem não estava a ter um grande dia. Contou-me que era a vizinha do lado (até então eu estava convencida de que não vivia ninguém na casa do lado), que abrira a porta de casa para ir sacudir os tapetes (na escada de um prédio?), que a porta batera e que ela não tinha chave, e pediu-me para usar o telefone para ligar ao marido. A mim espantou-me sobretudo que alguém usasse uma peça de roupa interior tão arrojada para sacudir tapetes nas escadas, mas há mulheres que precisam de sentir-se sensuais a toda a hora, segundo ouvi dizer.

Deixei-a sozinha na sala a telefonar ao marido e afastei-me tanto quanto o tamanho da casa permitia para não ouvir a conversa. Quando voltei ela estava às voltas ao bar, inegavelmente a namorar a criatura, com ar de quem havia encontrado uma peça irresistível.

Perguntou-me onde é que eu o tinha conseguido, eu contei-lhe, e ela disse o impensável:

– Diga por favor à sua senhoria que se ela alguma vez estiver interessada em vendê-lo que fale comigo.

Eu ainda pensei que ela se tivesse interessado pela boa qualidade da madeira, capaz de alimentar uma lareira durante todo o Inverno, mas ela acrescentou, para que não restassem dúvidas:

– Há anos que ando à procura de um móvel assim, era mesmo isto que eu queria.

Aquela resposta não era mais espantosa do que andar a sacudir tapetes com um babydoll de seda negra e eu, de boca aberta de pasmo, esperei com ela em silêncio até à chegada do marido que, como também não tinha chave de casa, trazia um casaco comprido para a tapar até ao carro.

Infelizmente nunca consegui ajudar a consumar a venda do móvel. A minha senhoria disse-me, com cara de poucos amigos (porque achava que eu estava a gozar com ela), que não vivia ninguém na casa ao lado da minha, que esse apartamento estava vazio há vários meses, e que não imaginava quem poderia ser essa senhora a que eu me referia. Enquanto eu ocupei a casa, nunca chegou nenhuma proposta de compra do bar, e quando eu saí despedi-me amigavelmente do meu indesejável companheiro de casa, fazendo-lhe uma foto que entretanto perdi (a de lá de cima é só para terem uma ideia de como é uma criatura dessa espécie), e segui caminho.

Há dias passei à porta da minha antiga casa e lá estava o cartaz de “aluga-se”, com a descrição do T1 mobilado que eu bem conhecia. O sacana do bar ainda lá deve estar, cada vez mais fora de moda. Nas suas superfícies espelhadas reflectiu-se a certo passo o meu rosto, esse momento particular da minha vida e de quem dela fazia parte, e antes de mim, sabe-se lá de quanta gente, e de quanta mais após a minha partida.

Estas casas de passagem, a quem nunca ninguém se afeiçoa, estes móveis que vão passando de mão em mão, que poderiam contar-nos se por um instante lhes fosse dada voz?

E pensando em tudo isto no apressada caminhada pela minha velha rua, deu-me uma vontade absurda de ver esse velho mostrengo, que vai resistindo à passagem do tempo e à circulação de inquilinos, apeteceu-me subir um instante e ir matar saudades do bicho mais inútil, mais feio, mais trombalazana que encontrei, e que, quem diria, haveria de ser recordado tanto tempo depois.

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