São “inocentes” e nuas as duas lembranças de 1944 ou estão antes providas de associações secundárias que o texto circunstancial a um amor encantatório mal deixa perceber? Não tenho qualquer dúvida em escolher a segunda hipótese. Trotsky acabara de ser assassinado no verão de 1940 por um assassino a soldo de Estaline, transformado em “herói” de Estado, e, porventura mais importante, Wolfgang Paalen (1905-1959) acabara de escrever no primeiro número da revista Dyn (Abril, 1942), por ele fundada, um farewell ao surrelismo, em que se tomam por inadequadas, e até por caducas, as referências maiores com que o movimento atravessara a década anterior e das quais tirara conclusões próprias – o acaso objectivo, devedor de Engels, a noção de objecto, cujo crédito vem da filosofia de Hegel, e sobretudo a necessidade de acertar o passo com os partidos revolucionários de origem marxista-leninista e que levara aos episódios da SASDLR e do partido comunista francês, e depois, quando a manápula do estalinismo se fez intratável, da travessia por dentro do trotskismo, com o nascimento da F.I.A.R.I. e a elaboração do manifesto desta em colaboração com o próprio Trostky. Austríaco, mas a viver no México, Paalen não era qualquer um; era tão-só uma das mais recentes e promissoras aquisições do surrealismo. Fora ele, com César Moro, o peruano que aderira ao surrealismo em Paris ainda na década de 20, na cidade do México, que organizara em Janeiro de 1940 a quarta Exposição Internacional do Surrealismo.
Já se viu na publicação de Prolegómenos a um Terceiro Manifesto ou Não, no primeiro número de VVV (Junho, 1942), onde se questiona qualquer pensamento sistemático e se liquida o antropomorfismo, outro dos motivos do texto de Paalen, a resposta de Breton às pouco esperadas mas pertinentes impugnações do organizador da exposição surrealista de 1940, que de resto regressará ao surrealismo na década de cinquenta, o que deixa em aberto que por aí ou por outro lado se deixou convencer de que o movimento superara os limites que lhe apontara no início da década anterior. Prefiro, pelo meu lado, eleger para resposta as duas recordações que abrem o livro do Outono de 1944, e onde o marxismo está de vez enterrado – nos Prolegómenos ainda há uma alusão a Engels (mas ao lado de Abelardo, de Heraclito, de Arnim, de Rousseau, de Jarry, de Eckart e outros assim desalinhados). Inumado o marxismo-leninismo, o que em seu lugar irrompe e com a força basilar daquilo que vem da infância é o movimento libertário, que de resto depois do corte com o partido comunista francês, em 1935, parecia andar cada vez mais nas vizinhanças do itinerário de Breton. No Verão de 1936, Benjamin Péret, um dos próximos e tão próximo que por causa dele Breton entrara nesse mesmo ano em rota de colisão com Paul Eluard, com quem nunca mais se conseguirá reconciliar, vai para Espanha para lutar ao lado da República contra o golpe militar. A princípio integra-se no P.O.U.M., o partido trotskista que mais afinidade mostrava com o itinerário político do grupo surrealista, mas pouco depois passa-se para a coluna Durruti, da C.N.T., onde fará parte da guerra – regressou em Abril de 1937 (o corte de Péret com a IVª Internacional só acontecerá porém em 1948). Isto não terá escapado a Breton, que no manifesto redigido no Verão de 1938, quando ainda se esperava algo da ofensiva republicana no Ebro, chega a escrever o seguinte (é um dos parágrafos cruciais do texto): A finalidade do presente apelo é o de procurar encontrar um terreno para reunir os paladinos revolucionários da arte, de modo a servir a revolução pelos métodos da arte e a defender a liberdade da arte contra os usurpadores da revolução. Estamos profundamente convencidos que o encontro neste campo é possível entre os representantes de tendências estéticas, filosóficas e políticas adiantadamente diferentes. Os marxistas podem aqui caminhar mão na mão com os anarquistas.” De resto, já antes, se podia ler: Se, para o desenvolvimento das forças produtivas materiais, a revolução necessita de construir um regime socialista de plano centralizado, para a criação intelectual ela deve desde o momento inicial estabelecer e assegurar um plano anarquista de liberdade individual. Nenhuma autoridade, nenhuma coacção, o mínimo vestígio de comando.
(Continua)

