A IDEIA – ANDRÉ BRETON LIBERTÁRIO E AUTOMATISTA* – (1) por António Cândido Franco

ideia1No Verão de 1944, já depois da ruptura com Jacqueline Lam, na companhia de Elisa Claro, com quem casará no ano seguinte, em Reno, André Breton, exilado na América desde 1941, por via de Vichy, abandona Nova Iorque e parte à descoberta do Quebeque, atraído pelas costas solitárias da península da Gaspésia, por onde vagueia durante semanas, só regressando ao ponto de partida no final de Outubro. Durante a viagem inicia a escrita dum novo livro, Arcane 17, que fechará nos primeiros dias do ano seguinte, dedicando-o a Elisa, modelo do mais benévolo influxo, e que terá uma primeira edição, em exclusivo bibliófila, na nova-iorquina casa Brentano’s, ficando a edição francesa, definitiva e corrente, Arcane 17 enté d’Ajours, para Junho de 1947, ano da reinstalação definitiva em Paris. O livro abre cruzando Elisa e a ilha de Bonaventure, um dos maiores santuários de pássaros de mar que existem no mundo, tudo por certo, do nome da ilha à emanação da mulher, mais que bastante para levar Breton a tomar para título do livro o mais auspicioso dos arcanos do velho Tarot, que fora de resto a sua derradeira consolação, com André Masson e Max Ernest, no curro de Marselha, quando tentava em Março de 1941 escapar de Vichy. Aberta a cortina, eis que de repente no livro, nas páginas iniciais, irrompe, viva e serpenteante, uma recordação de adolescência relativa ao ano de 1913, um desfile operário em Paris, no Pré-Saint-Gervais, em que as bandeiras negras anarquistas, flores carbonizadas – exclama ele, o haviam electrizado. E de seguida vem uma perturbante recordação de infância: Nunca esquecerei o choque, a exaltação e a euforia que me causou, numa das primeiras vezes em que, ainda criança, me levaram a um cemitério – entre tantos monumentos funerários deprimentes ou ridículos – a descoberta duma lápide simples de granito gravada em maiúsculas vermelhas com a estupenda insígnia: NI DIEU NI MAÎTRE.

O livro de Breton cogitado nas vastas solidões da Gaspésia conhecerá edição francesa (Sagittaire) no mesmo momento em que o grupoImagem1 surrealista de Paris dá à luz o manifesto “Rupture Inaugurale”. O livro aparece no princípio de Junho e o panfleto é distribuído a 21. Que se diz neste? Que o surrealismo se emancipa em definitivo de qualquer ligação partidária, seja ela qual for, e se dedicará em exclusivo a promover a criação dum novo mito capaz de empurrar a humanidade para uma etapa mais adiantada do seu destino. Não é pouco para um movimento que em 1929 se mostrara na disposição de trocar a sua publicação própria, La Révolution Surréaliste, por uma outra, Le Surréalisme au service de la Révolution (SASDLR), que significava a sua capitulação diante do partido comunista francês, de resto efectiva desde 8 de Novembro de 1925, altura em que o grupo declarou no órgão do partido, L’Humanité, não haver uma concepção surrealista da revolução. Mesmo depois da ruptura com este partido em 1935, antecedida pouco antes pela expulsão de Breton da A.É.A.R. (association des écrivains et artistes révolutionaires), as ilusões partidárias de Breton, em ligação com o marxismo-leninismo, não esmoreceram. Aproxima-se do trotskismo e em Dezembro de 1936, como tribuno, intervém num comício do P.O.I. (parti ouvrier internationaliste) contra os processos de Moscovo que acabavam de ter lugar (Setembro). Dois anos depois, no Verão de 1938, Breton vai ao México, onde redige com Trotsky o texto por uma arte revolucionário e independente, que não terá porém a assinatura do russo mas a do pintor Diego Rivera e será o manifesto de fundação da F.I.A.R.I. (federação internacional da arte revolucionária independente), cujo boletim, Clé, surge em Janeiro do ano seguinte, a do início da guerra, com Breton na redacção, se não à testa. Em Março de 1941, já depois do homicídio de Trotsky (Agosto, 1940), Breton abandona a França ocupada e instala-se em Nova Iorque. É aí que se separará de Jacqueline Lam (1942), o fulgurante amor que lhe inspirara L’Amour Fou (1937) e de quem tivera Aube Breton (n. 1935), que nesse livro trata por Écurette de Noireuil, e encontrará a jovem chilena Elisa Claro (1944), que lhe restitui a alegria e a excitação do amor, levando-o a conceber a escrita dum livro sobre o mais benéfico dos arcanos do Tarot, “A Estrela”, o 17. É ao iniciar a escrita desse livro, no final do Verão, vagabundeando pelas soidões da Gaspésia quebequiana, na companhia da sua estrela inspiradora, que Breton é apanhado pelas duas recordações atrás reportadas, a primeira relativa a uma manifestação operária em Paris, antes da revolução bolchevique, quando os pendões negros do anarco-sindicalismo enchiam o imaginário da emancipação, e depois uma lembrança mais antiga, vinda das terras virgens da infância, cruzando uma primeira ida ao cemitério e uma lápide libertária, o todo levando pouco depois, no regresso à Europa, ao manifesto de 1947, “Rupture Inaugurale”, que parece ter sido a carta de alforria com que o surrealismo iniciou a terceira fase de vida, a meu ver a mais emancipada, e por isso a mais larga e a mais dinâmica, se não a mais rica, aquela em que pôde surgir a torre gelada dum António Maria Lisboa ou a poesia, a prosa e os sinais mistéricos e pictóricos dum Mário Cesariny, cuja importância e lugar no quadro do surrealismo internacional está ainda por perceber.

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*Esta nota não podia existir sem contributos bibliográficos exteriores – isto para além dos textos de Breton nela citados. Refira-se o trabalho de Marguerite Bonnet sobre dois textos recolhidos em La Clé des Champs (1953), “Pour un Art Révolutionnaire Indépendant” e “La Claire Tour”, este dado a lume inicialmente no jornal Le Libertaire (11-2-1951), trabalho esse publicado no terceiro tomo de Oeuvres Complètes (Gallimard, 1999). De resto é ainda a Marguerite Bonnet que se recorre para historiar parte dos eventos relativos a Breton entre 1913 e 1924, com especial enfoque no caso de Germaine Berton, aqui no primeiro tomo das mesmas obras (1988). Também o trabalho de Étienne-Alain Hubert, comentando as intervenções de Breton a favor da C.N.T., no terceiro tomo das obras, dos objectores de consciência encarcerados e de Louis Lecoin, no quarto tomo (2008), nos deu elementos valiosos para o comentário. Tirando estes contributos, que foram de socorro, cite-se ainda um trabalho (que não conhecemos): Surréalisme et Anarchie (1983) de José Pierre. E um outro, que também desconhecemos, mas que pode ser de valor para o pesquisador, Surrealismo e Anarquismo (Editora Imaginário, São Paulo, 2001) onde Plínio Augusto Coelho recolhe, traduz e comenta a colaboração dos surrealistas franceses no jornal Le Libertaire. O itinerário político de Benjamin Péret merecia, só ele, um texto à parte. Registem-se porém as relações amorosas com Remedios Varo, anarquista espanhola, no tempo da guerra civil, e com quem se exilou depois no México, e as ulteriores colaborações que deu ao jornal Le Libertaire, algumas delas de invulgar alcance teórico (v. B. Péret, Oeuvres Complètes, Textes Politiques, vol 5, 1989). As traduções que se apresentam de A. Breton foram autorizadas por sua filha, e actual herdeira, Aube Breton-Elléouët (referida em L’Amour Fou), animadora da colecção Phares – que, a seu pedido, se publicita na contracapa deste número.

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