Imagine que havia um clube de futebol com poder para, no decurso de cada jogo, alterar as regras – por exemplo, eliminando a lei do fora de jogo sempre que isso lhe conviesse e determinando que um defesa da equipa contrária, se espirrar dentro da pequena área, dá lugar à marcação de um penalty. Claro que não seria justo, mas quem se preocupa com a justiça no mundo do futebol – justiça é o nosso clube ganhar!
E no mundo da política?
Imagine que, beneficiando dos erros sucessivos de um dado governo, das mentiras em que o primeiro-ministro foi apanhado, das negociatas em que alguns dos seus amigos foram surpreendidos, da hostilidade que o presidente da República lhe manifestou (e, também, de um cerco que parte da comunicação social lhe fez), imagine que um grupo de rapazes e raparigas, sem currículos credíveis, ostentando diplomas de pacotilha, mas protegidos pelos poderes reinantes, atingem o poder. Imagine que desatam a mudar as leis de modo a que elas não atrapalhem as medidas que interessam a quem lhes paga, os protege e neles manda…
A Constituição deveria ser um documento blindado e inacessível a mudanças que não fossem referendadas após ampla discussão pública. Com os três poderes da República tomados por herdeiros do regime fascista, por crápulas e imbecis, com uma oposição que, de uma forma ou de outra, colabora na farsa, não necessitamos de muita imaginação para vaticinar que a nossa democracia, que vai completar quarenta anos, não será uma madura e bela balzaquiana, mas uma podre e cadavérica kafkiana. Lennon, meu velho, nem tu sabes como nos é fácil imaginar que o paraíso não existe!