ESTA TARDE COMEÇA  O MUNDIAL  DE FUTEBOL – por Carlos Loures

 

Esta tarde começa a disputar-se o Campeonato Mundial de Futebol, que se realiza na Rússia. Até 15 de Julho, os muitos milhões de pessoas que gostam do «desporto-rei»  estarão coladas aos televisores. Estarei entre esses milhões de “fumadores de ópio”. 

«A religião é o ópio do povo» é uma afirmação de Karl Marx na sua introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, obra escrita em 1843 e publicada no ano seguinte. A frase completa, a comparação do papel alienatório da religião com o efeito do ópio, era, no entanto recorrente, à época da edição, pois, fora já usada por  Kant, Novalis, Feuerbach e outros. Completando a frase de Marx integrando-a mais  no seu contexto, é assim; «A religião é o soluço (o suspiro) da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração, o espírito de um estado de coisas carente de espírito. A religião é o ópio do povo. A abolição da religião enquanto felicidade ilusória dos homens é a exigência da sua felicidade real. O apelo para que abandonem as ilusões a respeito da sua condição é o apelo para abandonarem uma condição que precisa de ilusões. A crítica da religião é, pois, o germe da crítica do vale de lágrimas, do qual a religião é a auréola.»

Muitas destas palavras poderiam ser endereçadas ao clima de fanatismo clubista, de fúria insana, que o fenómeno dito desportivo faz eclodir entre populações, criando ódios e preconceitos com uma intensidade que as formações politicas muito raramente atingem. Os chamados órgãos de informação têm explorado de uma forma miserável a crise que eclodiu num clube que é um dos pilares do desporto em Portugal. Um sistema que vive da corrupção instalou-se no mundo  do futebol e atinge não só os chamados «grandes» como os pequenos clubes. Os jogadores são transaccionados por verbas que são um insulto a quem trabalha e não ganha em toda a sua vida o que aqueles meninos auferem num mês. O «sistema», chamemos-lhe assim, está instalado em todos os países (ou em quase todos). Os escândalos não são um exclusivo do nosso País – o polvo da sinistra corrupção estende os seus tentáculos pela Europa, pela América Latina, por África, ameaça a Ásia… O próprio organismo internacional que gere os destinos de futebol não é imune às trafulhices que lavram por direcções e presidências de grandes e pequenos clubes. O futebol como ideologia é um ensaio do psicólogo alemão Gerhard Vinnai (Estugarda, 1940). Até à aposentação em 2005, foi professor na Universidade de Bremen. No prefácio da edição portuguesa – datada de 1976 – Vinnai, incorrendo num lugar-comum, afirmava que Portugal era um país em que «o futebol e Fátima competem ainda no esforço de consolar as massas da miséria da sua vida de todos os dias». De 1976 para cá, a situação alterou-se substancialmente – para melhor numas coisas, para pior noutras – Fátima e o fado (Vinnai esqueceu-se do fado), perderam terreno, mas o futebol que naqueles anos em que a luta política assumiu um papel importante na vida dos cidadãos, perdeu protagonismo, veio depois a recuperar o seu papel cimeiro nas preocupações mais ingentes de grande número de cidadãos. Ainda me lembro, durante a ditadura, de ver em cafés, bares, em barbearias, em lugares públicos onde se juntavam homens, pequenos cartazes impressos que diziam «Proibido discutir política e futebol». Não se podia discutir política porque era perigoso, a PIDE tinha olhos e ouvidos onde menos se esperava. Já discutir futebol era uma fonte de zangas e de desordens. Imaginem um bar ou uma taberna – vinho e futebol era uma mistura explosiva. Daí os cartazes. Mantenho uma opinião que tenho expendido abundantemente – discutir futebol na óptica clubística, reduz a capacidade de raciocínio, transformando pessoas inteligentes em patetas. Gosto muito de futebol e até tenho uma forte e indeclinável opção clubística. No entanto, nunca atribuí ao futebol, que é só um jogo, a importância que vejo muita gente conceder-lhe. É um jogo e é um negócio. Mas hoje só quero falar do jogo e da sua incidência, quase sempre negativa, nas mentalidades.

Acho graça quando ouço a um adepto de qualquer dos «grandes» que ser benfiquista, portista ou sportinguista é qualquer coisa de especial, de único. Acho graça, porque somos todos iguais, com reacções iguais.  Tenho uma receita infalível – se o futebol do meu clube anda  na «mó de baixo»,  prefero falar de futsal ou ou de qualquer outra modalidade em que esteja a sair-se bem. Pensando bem, o futebol não tem qualquer importância ou só tem a importância que lhe atribuirmos. A não ser que o transformemos em ideologia ou em religião, mas essa não é uma atitude sensata. O nosso clube estar a ganhar ou estar a perder, pode-nos dar alegria, boa-disposição, como disse Vinnai «distrair-nos das misérias das nossas vidas  de todos os dias», mas para o que verdadeiramente importa, não conta. È um ópio que vicia transversalmente o tecido social . É igualzinho a zero.

Um zero tão redondo como uma bola de futebol.

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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