EDITORIAL: O futebol é uma ideologia?

A Nova Realidade, a mesma editora artesanal que publicou Cantares de José Afonso, editou um ensaio do alemão «oriental» Gerhard Vinnai, – «O Futebol como Ideologia». No prefácio da edição portuguesa – datada de 1976 – Vinnai caracterizava Portugal como um país em que «o futebol e Fátima competem ainda no esforço de consolar as massas da miséria da sua vida de todos os dias».  42 anos depois, as coisas não são bem assim, mas há estigmas do passado que se sobrepõem aos comportamentos actuais – muitos deles diferentes, mas não melhores.

Há por certo quem ainda se recorde, durante a ditadura, de ver em cafés, bares, em barbearias, em lugares públicos onde se juntavam homens, pequenos cartazes impressos que diziam . «Proibido discutir política e futebol». Não se podia discutir política porque era perigoso, a PIDE tinha olhos e ouvidos onde menos se esperava. Já discutir futebol era uma fonte de zangas e de desordens. Imaginem um bar ou uma taberna – vinho e futebol era uma mistura explosiva. Daí os cartazes.

Já o temos afirmado, os coordenadores deste blogue gostam de futebol e até têm opções clubísticas. No entanto, não atribuem ao futebol, que é só um jogo, a importância que vemos a sociedade em geral conceder-lhe. É um jogo e é um negócio. E que negócio! Jovens de \18 anos são «vendidos» por dezenas de milhões de euros, os restos mortais de  Eusébio são depostos no Panteão Nacional, um dos quatro aeroportos internacionais do País é baptizado com o nome de Cristiano Ronaldo… Na face obscura do  negócio, há tráfico de drogas e de ideias, se ideias se pode chamar às catadupas de imbecilidades que os jornais desportivos veiculam…
Ontem o País ficou de respiração suspensa, apneia decorrente da realização de um jogo entre o Benfica e o Porto. Hoje, um futebolista agride um árbitro… Vejamos as coisas como elas são . o futebol é um jogo bonito (quando bem jogado), mas é só isso . um jogo.
Achamos graça quando um adepto de qualquer destes clubes grandes que ser benfiquista, portista ou sportinguista é qualquer coisa de especial, de único.  Achamos graça, porque todos são iguais, com reacções iguais.
Pensando bem, o futebol não tem qualquer importância. A não ser que o transformemos em ideologia ou em religião. Mas essa não é uma atitude sensata. O nosso clube estar a ganhar ou estar a perder, pode-nos dar alegria, boa-disposição, como disse Vinnai »distrair-nos das misérias das nossas vidas de todos os dias», mas para o que verdadeiramente importa, não conta. É igualzinho a zero.
Um zero tão redondo como a bola de futebol.

2 comments

  1. José Gabriel Pereira Bastos

    O CLUBISMO desportivo fornece um reforço (de valor) identitário na competição inter-nacional, regional e local, aumenta a auto-estima das massas empobrecidas, transforma-se em poderoso negócio (como a religião) e absorve tensões que, sem ele, se iriam focar noutros Clubismos, como o clubismo religioso ou o Clubismo partidário.
    O desejo de pertença (nacional, regional, local, desportiva, religiosa, partidária, etc.) potencia a identidade pessoal, enraíza-a em territórios e fornece-lhe ideais imateriais de valor acrescentado. Os processos e estratégias identitárias baseada no confronto de ‘categorias’ (“exploradores” versus “explorados”) são a base do Marxismo, na “luta de classes”, um “campeonato binarizado”, o que provocou reactivamente o investimento britânico no “desporto” (no Foot Ball e noutros desportos de competição), como forma gradualista de investimento e sublimação das pulsões agressivas em “campeonatos”, ou seja, em “guerras” locais.
    Os PROCESSOS E ESTRATÉGIAS IDENTITÁRIAS constituem a área cega que separa, no Academismo, a psicologia cognitivo-comportamental (individualista) das ciências sociais e políticas, uma criação de fronteiras que a psicanálise não-clínica veio preencher teoricamente. É a minha área de investigação, em obras como PORTUGAL MULTICULTURAL. Situação e estratégias identitárias das minorias étnicas. Lisboa, Fim de Século, 1999, PORTUGAL EUROPEU. Estratégias identitárias dos portugueses. Oeiras: Celta, 2000 ou PORTUGUESES CIGANOS E CIGANOFOBIA EM PORTUGAL, Lisboa: CEMME/CRIA e Colibri, 2012. Sem as ciências sociais e a sua interpenetração integrativa com a teorização freudiana da articulação dramática e problemática da organização da mente com a organização conflictual e instável do mundo apenas resta o Racionalismo Didático que o texto invoca com recurso ao pensamento mágico (“profiro, logo vai acontecer”).

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  2. Paula Reis

    YES.
    Mas é uma barbaridade. As pessoas aleijam-se propositadamente, os es+ectadores portam-se como se vê.
    Bom, antes as cadeiras do estádio que nós…
    Mas é muito primitivo – deixou de ser um desporto.
    ouando eu era miuda ficava tudo louco com o hóquei. Nunca percebi qual a graça.
    Entretanto endeusam os jogadores e dão essas barracas aeriportuárias, etc.
    Não quererão meter o Ronaldo do Panteão já?
    Já que é tudo tão aceletadp com ele….
    Sempre e evirtava mais criancinhas sem mãe… E o silêncio cúmplice dos adeptos e não só.
    Os maustratos não se aplicam ao Ronaldo, é?
    A Lei não se aplica? A Defesa das Crianças, ou lá como se chama, não actua?
    Éum mentecapro a dar pontapés. Mas até aí… Mas os filhos?
    Por favor, Argonautas, digam algo sobre isto – porque é um crime.

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