“VÉNUS DE VISON” NO TEATRO ABERTO por Clara Castilho
clara castilho
Só têm até ao fim do mês para irem assistir a esta Vénus de Vison, de David Ives. Foi o que fiz e com muito gosto. Logo à entrada vemos um placard onde se avisa que o teatro está em vias de fechar, a continuar-se a falta de apoios e onde se vêm os rostos de todos os nele trabalharam.
Com duas personagens em cena, Ana Guiomar e Pedro Laginha, tem versão, dramaturgia e encenação de Marta Dias, cenário Rui Francisco, figurinos Dino Alves, luz João Lourenço, supervisão audiovisual Nuno Neves, sonoplastia João Lanita | Manuel San Payo e apoio ao movimento Cláudia Nóvoa.
O programa da peça é, por si só, material para uma leitura muito mais demorada do que a duração da peça – 1h e 40 m. E que tem que ser bem digerido, tantas as informações, tantas as ligações “racionais” e “emocionais” que nos fazem despertar.
No site do teatro é-nos apresentada a sinopse: “ No fim de um dia frustrante de audições, Tomás, o encenador, está sem esperança de vir a encontrar a protagonista da sua peça. Prepara-se para voltar a casa, quando, de repente, surge mais uma actriz. Vem atrasada mas ainda quer prestar provas. Chama-se Vanda – o mesmo nome da personagem da peça. Será ela diferente de todas as outras?
Inspirada no universo sensual de Leopold von Sacher-Masoch (1836-1895), esta é uma peça inquietante, onde nos perguntamos constantemente se o que parece é. Qual é a cara do poder, no território de todas as máscaras, o teatro? Quem seduz? Quem resiste? E o que acontece quando o desejo ganha vida?”
Durante esta longa e estranha audição, vê-se crescer a atracção de Thomas por Vanda até se transformar numa obsessão, num intrincado jogo de espelhos entre os dois personagens que se vão transformando um no outro.
Severin e Vanda, Thomas e Vanda, homem e mulher, escravo e senhora. Eis algumas das dicotomias presentes em “Vénus de Vison”. Vanda, a candidata a atriz, questiona o argumento do livro de Mascoch e desfasada da realidade burguesa do século XIX, chama-lhe sexista e depravado.
Falar da peça e não falar do teatro onde está a ser representada será incompleto. Do seu site: “ O Novo Grupo de Teatro – Teatro Aberto – foi fundado em 1982 por profissionais de teatro ligados aos primeiros grupos de teatro independente em Portugal. Foram seus fundadores: João Lourenço, Irene Cruz, Francisco Pestana e Melim Teixeira.
Na linha de uma investigação dramatúrgica e teatral que estuda o homem nas contradições das diversas épocas e o modo como ele constrói ou desfaz o seu destino, o Teatro Aberto pretende apresentar um teatro em que a realidade e o sonho, a história e a poesia se manifestam no prazer da reflexão sobre a situação do homem no mundo.
Para a concretização desse objectivo, o Teatro Aberto escolhe e trabalha sobretudo um repertório contemporâneo constituído por novos textos e novos autores da nova dramaturgia portuguesa e estrangeira.
Desde Maio de 1982 que apresentamos um repertório de teatro contemporâneo, nacional e estrangeiro e desde 2002 que investimos num repertório musical essencialmente composto por óperas sob a direcção do Maestro João Paulo Santos”. A direcção é de João Lourenço, Irene Cruz, Francisco Pestana e Melim Teixeira.