Quantas vezes nos acontece, sobre a manhã, prolongarmos, meio despertos, o sonho interrompido. Há quarenta anos, por estes dias, vivíamos o fim de um pesadelo. Ou melhor, vivíamos aquilo que semanas depois julgámos ter sido o fim de um pesadelo. Hoje, a escassas três semanas de comemorarmos o 40º aniversário, estamos (uma grande parte dos portugueses, está) a viver um novo pesadelo. A Nação, no seu conjunto, vai celebrar a data. Uma data que não significa o mesmo para todos. E não devemos deixar que o pareça.
Para a grande maioria dos portugueses, vai comemorar-se a data em que as Forças Armadas, que em 1926 tinham derrubado a I República, nos restituíram os direitos fundamentais, pondo termo a quse meio-século de repressão económica, política e cultural. Quatro décadas decorridas sobre essa alvorada de Abril, mantemos apenas a democracia formal que nos permite protestar contra a repressão económica que nos voltou a ser imposta. Porque os herdeiros dos que durante a ditadura impunham os seus interesses e privilégios aos da grande maioria do povo, ocupam as cadeiras do poder. Agora em nome dos valores democráticos. E vão celebrar Abril. Para eles, Abril, significou o despir da velha camisa verde, o fim de uma guerra inútil, o desaparecimento de um aparelho repressivo que dava mau aspecto e não silenciava as vozes contestatárias – alimentando o renovo permanente desse coro incómodo.
É outro Abril o que os donos de Portugal vão celebrar.
Em declarações de ontem, no programa “Grande Entrevista”, da RTP Otelo Saraiva de Carvalho afirmou que “ainda há alguns valores importantes”. E defendeu a queda do Governo pela força.
E salientou que o Executivo perdeu soberania alienando-a a interesses exteriores. A legitimidade para uma intervenção militar existe. Existe? Para os antifascistas que celebram a vitória da democracia, uma intervenção militar seria criminosa e, sobretudo, anti-democrática. Para os que estão agarrados aos despojos de um Abril verdadeiramente libertador, essa intervenção impõe-se.