O pesadelo líbio – por José Goulão

Os principais dirigentes mundiais saúdam efusivamente a nova realidade que se vive na Líbia, qualificam-na como o início da democracia e chegam mesmo a manifestar satisfação pelo modo como Muammar Kadhafi foi linchado, deixando perceber que o seu brutal silenciamento lhes traz, afinal, algum alívio.

 

Tal estado de espírito levanta-me algumas interrogações. Nunca fui adepto do regime, da figura e dos métodos do ex-dirigente líbio, nunca integrei aquelas nutridas delegações de variadas cores políticas e empresariais portuguesas que em cada 1 de Setembro iam celebrar a revolução a Tripoli a convite do chefe do regime, se bem que alguns desses viajantes, pagos e tratados como VIP’s, se tenham apressado agora a proclamar que “Kadhafi morreu como merecia”.

 

Reconheço que o regime do coronel contribuiu para o desenvolvimento do país, proporcionou condições de vida aos cidadãos líbios – que não aos imigrantes – que estão acima do nível médio africano, e que fez obras de peso na promoção da indústria petrolífera e no combate à desertificação. Os métodos políticos poderiam ter sido outros, mas a autocracia de Kadhafi deixou a longa distância, em termos de desenvolvimento e realizações, a maioria das outras autocracias do Médio Oriente muito apreciadas pelos dirigentes ocidentais, a começar pela da Arábia Saudita.

 

 Agora, as primeiras interrogações: será esta a única maneira, ou a melhor maneira, de dar berço à democracia? Isto é, será necessário montar uma guerra, devastar grande parte das estruturas do país, vasculhar nas elites do regime para criar outro com base nos vira-casacas, recorrer ao banditismo de inspiração religiosa e linchar publicamente o ex-líder para lançar as bases da democracia? Uma democracia nascerá saudavelmente neste cenário?

 

Interrogações seguintes: será este o exemplo acabado de uma “Primavera Árabe” – seja lá o que isso for, porque até agora conhecemos alguns episódios com inícios genuinamente populares mas não sabemos como irão terminar? Será o caso líbio a ilustração da pressa com que os senhores do Império – depois de ocorridos os casos tunisino e egípcio e o afogamento em sangue da revolta no Bahrein – querem agarrar nos sinais de descontentamento popular para os manipular e se apossar deles, nem que seja pela força?

 

E agora a pergunta decisiva: terão os senhores de Washington, Londres e Paris que montaram esta trágica farsa a noção de que transformaram uma vaga e hipotética “Primavera líbia” num mais do que previsível pesadelo para os líbios? Talvez tenham, talvez não tenham, mas consideram provavelmente que essa incerteza é um preço que vale a pena pagar pelas maiores reservas petrolíferas de África e pela concretização de um passo mais na estratégia de reactualização do poder colonial com base em renovadas estruturas político militares. Não se esqueçam de que já nem nos Estados Unidos é segredo que Obama, em tempos proclamado “filho de África”, age cada vez mais como “senhor de África”.

 

 Derrubado o regime em Tripoli, eliminado Kadhafi, a Líbia começa agora a viver a sua realidade “democrática”. No poder está uma organização chamada Conselho Nacional de Transição que não se conhece sequer muito bem a si própria, na qual avultam colaboradores íntimos de Kadhafi reciclados por Londres e Paris, sustentada numa estrutura militar assente em mercenários de várias origens e, sobretudo, em experientes gangs fundamentalistas islâmicos com longa experiência e origens na al-Qaida e afins. E a estrutura tribal do país emerge agora ainda mais fraccionada pelas feridas de guerra e pelo desmoronamento do equilíbrio que, durante muitos anos, foi o “segredo” do antigo regime. A tutela político-militar da NATO vai permanecer, mas dificilmente conseguirá deter um processo de instabilidade e violência ao pé do qual – e desejam que me engane – os piores tempos do Iraque parecerão amenas “primaveras”.

1 Comment

  1. Muito boa entrada neste mar de navegantes um tanto à deriva, José Goulão. Texto necessário, incisivo, útil. Todavia, conhecendo nós o muito que vale e o muito que sabe sabe José Goulão, acreditamos que as interrogações seriam desnecessárias, embora saibamos que, por vezes, e talvez com maior eficácia, as coisas devem ser embrulhadas em paninhos quentes. Quanto a mim, acima de tudo, sobressaiem nesta tragédia os milhares de civis inocentes, iguais a todos os civis da nossa terra e da nossa família, abatidos da noite para o dia, sacrificados à santa liberdade das companhias petrolíferas. Não morreram em vão, dizem os fabricantes da guerra. Morreram no chão, estendendo sobre a areia um tapete de sangue vermelho, por onde haveriam de entrar os passos da Senhora Clinton e por onde haverão de entrar, futuramente, todos os arautos da liberdade e do verbo encher.

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