CONTOS & CRÓNICAS – “Louça suja” – por Catarina Pereira
carlosloures
Aconteceu tão lentamente que parecia natural, e eu ansiava pelos almoços em família, nos fins de semana e feriados. Ele chegava sempre sorrindo, meu tio mais simpático, sua mulher miúda e encolhida carregando a maionese de batatas.
Em meio aos cumprimentos gerais, me pegava no colo; eu voava a alturas enormes até depositar-lhe um beijo na bochecha recém-barbeada, cheirando a lavanda inglesa.
Não me lembro da primeira vez. Mas, logo no começo, ele me disse, seria a nossa brincadeira secreta. A comilança durava quase o dia inteiro e as mulheres, usando a louça suja como desculpa, engatavam na cozinha um interminável falar mal dos maridos. Os homens, entre cigarros, piadas e cafés, à espera de um jogo qualquer na tevê, os meninos empenhados num campeonato de botão espalhado por toda a varanda e eu, a única menina, vagando lá e cá. Meu tio, então, escolhia um livro na estante, colocava os cigarros e o isqueiro no bolso da camisa e nos convidava a ouvir uma história, no fundo do quintal “para não atrapalhar o futebol e a fofoca”. Raramente, um ou dois primos pequenos nos acompanhavam. Nessas ocasiões, rápidos afagos nos cabelos e uma piscadela me alertavam, nosso segredo estava em perigo.
Ele lia histórias maravilhosas e assustadoras, contava de reis, rainhas, homens com narizes de nabo. No seu colo, me tornava princesa de países distantes, fada voando no céu. Ao fim de cada história me ajeitava as roupas e, com um tapa na bunda, me despachava de volta à casa. Eu corria, a tempo de assistir ao banho do novo xodó da família, minha prima de poucos meses.
Enfim, um dia, curiosa em saber o que fazia depois de me mandar embora, me escondi atrás de uma das árvores do quintal. Nem precisava. Ele continuou sentado, de costas para mim, e gemia alto, movendo o corpo em espasmos. Esperei alguns segundos, antes de decidir salvá-lo do que quer que estivesse sofrendo. Quando cheguei perto não parou, só me disse olha”. Olhei. Mas saí em disparada, fui me encolher no canto de um dos quartos, sentindo o coração pular, nosso segredo ainda mais secreto e uma vaga consciência, daquele dia em diante, de ser também culpada.
Na reunião seguinte, pensei em inventar uma dor qualquer, mas era Páscoa, e procurar ovos de chocolate, prioridade para uma menina de oito anos. Meu tio chegou como sempre, a mulherzinha a tiracolo e como sempre me vi, no final da tarde, no colo dele, no fundo do quintal.
Eu não gostava nada da última parte, mas o resto, as histórias, o carinho, tudo tão bom que com o tempo, ao ouvir o “olha”, olhava de olhos fechados, pensando num castelo ou num príncipe, só às vezes num monstro soltando fogo pela boca e, nessas horas, apertava sua cintura num abraço, ele apertava minha cabeça contra o peito.
Em algum momento, porém, meu corpo começou a mudar. Dois botões de seios cresciam aos poucos. Uma sensação de orgulho e estranheza culminando, num dia frio de junho, com o sangramento ao mesmo tempo esperado e temido que, eu sabia, me arrancava para sempre do mundo infantil.
As conseqüências vieram naturalmente, como tudo. A nova mocinha da família não podia tomar banho com os meninos menores (os maiores já haviam sido proibidos de tomar banho comigo), precisava fechar a porta do banheiro.
Fiz várias tentativas de fugir da minha nova vida. De garota mimada passei a respondona, mal-educada, rebelde. A resposta mais comum às minhas perguntas – “porque você agora é uma mocinha” – não fazia sentido para mim.
Mas, de todos os efeitos nefastos das minhas múltiplas transformações, o pior, sem dúvida, foi o que me atirou da varanda e do quintal para o meio do matraquear sem fim da cozinha, nova responsável por guardar a louça e passar o pano molhado no chão. Fazia tudo zunindo, mas bem feito, obediência única, arrancava elogios das mulheres exigentes. Só querendo me livrar delas e correr para o banco de madeira tosca do fundo do quintal onde, até alguns meses antes, ele me esperava fumando um cigarro chamado por todos de mata-rato porque, diziam, forte e fedorento. Não mais. Eu chutava folhas pelo caminho de volta e o descobria na varanda entre os meninos, ou na sala entre os homens, sorrindo para mim um sorriso neutro como sorria para minha mãe e minhas tias.
Eu sentia muita falta das histórias, dos carinhos, dos abraços, muita raiva por chegar sempre tarde demais. Nossa brincadeira secreta ficava a cada almoço mais distante e, enfim, dispersa entre as novidades do corpo, da escola e dos garotos, guardei-o num canto do pensamento, não esquecido, nem triste, apenas marcado como uma história que eu não havia acabado de ler.
Muitas semanas depois, me ofereci para levar o lixo logo ali, ao lado da porta, deixei as mulheres tagarelando e escapei. Os meninos e os homens, na sala da frente, discutiam ou brigavam por causa de um jogo de futebol na tevê. Procurei-o por todos os cômodos. Sem encontrá-lo, deduzi, feliz, que me esperava no fundo do quintal. Mal pisei na varanda, ouvi minha mãe me chamar. Ela me arrastou de volta para a cozinha, me mostrou a louça, o pano de chão, o balde e saiu. Eu tinha uma tarefa a cumprir, não adiantava fazer hora. Quase a odiei naquele momento.
Quando acabei, vi minha prima no colo da mãe, as pernas balançando, o rosto afogueado.
Logo, meu tio surgiu na porta, foi se juntar aos outros. Passou por mim, sem ao menos me ver.
Cheirava a uma mistura de lavanda inglesa e cigarro barato. Então percebi o que estava acontecendo. Arrastei um peso enorme para casa.
No aniversário de uma das tias, o mexerico da vez na família era sua separação. A mulher pequena, a da maionese, tinha simplesmente feito as malas e ido embora. Esta era a versão dele.
Na cozinha, em tom de cochicho, as apostas caíram todas em uma amante. Tomara detestasse maionese de batatas.
Neste dia e nos dois ou três almoços seguintes, ele não saiu da sala.
Perto do fim do ano, anunciou uma noiva. Minha cabeça adolescente me imaginou num vestido lindo, entrando em triunfo na maior igreja da cidade. Imediatamente, imaginei também minha prima, no colo dele, dizendo sim em frente ao padre.
A tal noiva não apareceu, despertando nova rodada de futricas, logo abafada pelos meninos, trazendo as primeiras namoradas para o réveillon e comentários do tipo “o fulaninho já”, “o sicraninho ainda não”.
No primeiro dia de janeiro, eu estava com cólicas e de péssimo humor. Um ano passado e eu continuava a me sentir suja e nojenta a cada menstruação. E, para piorar, no fim de todas as minhas suposições, “ficar mocinha” era o que havia afastado meu tio de mim.
Naquela tarde, não resisti. Larguei o rodo com o pano de chão molhado no meio do piso vermelho, saí pela porta dos fundos. Senti um puxão na camiseta e me virei. Dei de cara com minha mãe, vigilante: “Já terminou, mocinha?” Segurei sua mão e fiz sinal para que se calasse.
Ela ameaçou brigar, mas parou ao a-perto forte. Seguiu um passo atrás de mim. Nunca aquele quintal foi tão grande.
Ouço os gritos dela até hoje. Não entendi o que disse, mas sei que foi alto, muito alto.
Num segundo a família estava toda ao redor do banco de madeira, meu tio mais simpático de pé, paralisado em frente a todos. Minha prima, nua, esperneava chorando, caída no chão.
Não me lembro do que aconteceu depois. A última imagem que tenho nítida desse dia é a dos olhos dele fixos em mim. E de dizer para ele, sem abrir a boca, “Tudo bem, tio. Nós ainda temos nossa brincadeira secreta”.