A imagem que lhe devolvia o espelho era, mais ou menos, a de todos os dias.
Sentada ao pé da cama, calcinha e camiseta coladas no corpo. Só alguns detalhes, como naqueles desenhos de procurar diferenças, não eram habituais.
O cabelo não; estava como sempre, solto e apenas um pouco despenteado. No rosto, um filete de sangue escorria devagar do lado esquerdo do lábio inferior, cortado. Um pequeno hematoma sob o olho esquerdo e gotas de sangue pingando da narina do mesmo lado. Era tudo.
Ao olhar para baixo, viu o sangue na calcinha, na coxa direita, no lençol. Desta vez, mais machucada por dentro. Algumas manchas nas pernas, entre elas, marcas de dedos.
Depois de longo tempo, não restava senão olhar as mãos. A esquerda cruzada, ainda protegendo o colo. A direita segurando a faca de cozinha, cabo de madeira preto, presente de casamento. A lâmina grande e larga suja de sangue. Um objeto estranho no quarto; esta era a diferença.
Olhou no fundo do espelho. Atrás dela, ele estava deitado no lugar de costume, do lado direito da cama na imagem. A pele morena, os cabelos curtos com os primeiros fios brancos, o lençol cobrindo o ventre, as pernas, tão bem feitas quanto o rosto, e ele todo, por fora. Uma mancha escura no peito; outra diferença.
Levantou-se, alongou as costas, o pescoço. Viu-se inteira dentro do espelho. Já não gotejava sangue do nariz e o filete do lábio estava seco, colado ao queixo.
Pela primeira vez, em anos, não se lamentou. Como se a própria sombra se movesse dentro do quarto, podia rever tudo, sem fechar os olhos. Mas não conseguia entender. Não entendia por que havia tolerado tantas vezes, e não esta. Só mais uma. Nada especial.
Deixou a faca no chão, junto à cama. Passou os dedos nos cabelos, se aproximou dele.
Tocou seu pescoço, imitando cena de filme. Fixou-se por instantes em sua boca, em seu nariz, em seu peito.
Afinal, pode não haver o que entender. Só que há um limite inevitável. Um dia, simplesmente, não cabe mais uma vez.
Foi até a sala, pegou o telefone. Por um momento, hesitou. Embora parecesse adequado, não podia chamar o serviço de retirada de entulho. A polícia. 190. Do outro lado da linha uma voz masculina respondeu uma cantilena bem decorada. Ela disse seu nome e acrescentou: “meu marido está morto em nossa cama. Atravessei seu peito com a faca de carne”.
Desligou.
Voltou para o quarto, encolheu-se ao lado dele, os braços cruzados sobre os seios. Olhou novamente no fundo do espelho. Para trás, para além da cama, da parede, do tempo. Lembrou-se com detalhes do primeiro dia no apartamento onde o único móvel era o armário embutido de portas espelhadas.
E das risadas ecoando nas paredes, ao imaginarem seus corpos refletidos no espelho.