
(Continuação)
O anarquismo é por si só um vasto campo de ideias, e até de acções, controverso como nenhum outro, muito diverso entre si, que chega para explicar, sem mais, as flutuações que vemos em jogo no embrião polémico que se estabeleceu em 1989 no seio do grupo editor e as ideias que se desenvolvem no texto de Freire depois no momento da dissolução do grupo (1991).
Não é ocasional, nem indiferente para aquilo que aqui se joga, o paralelo que Freire traça no seu texto entre as posições que então toma, na crise do Golfo, e as posições alinhadas, antigermanistas, pró-francesas assumidas por uma parte do movimento libertário internacional em 1914.
Os ventos da perestroika podem ainda ter empurrado alguns membros da revista a reavaliarem certas manifestações da acção anarquista, como a decorrente da intervenção da C.N.T. espanhola no governo de Largo Caballero (Novembro, 1936) – objecto de demorado estudo de João Freire (“Espanha: Veemência e Violência”, n.º 65, Outubro, 2008). Ou porventura nem isso, pois a atenção no tema da reforma vinha já da Primavera de 1981 (n.º 20-21), antes pois da crise a leste, e o problema espanhol fora objecto de pasta temática em Junho de 1986 (n.º 40-41), onde o mesmo João Freire dá a conhecer o percurso de Angel Pestaña, Horacio Prieto e Germinal de Sousa, que advogaram os três a necessidade duma articulação política, de tipo partidário, para o movimento libertário organizado. E não se olvide que já no Verão de 1980 (n.º 17, supl.), numa altura muito recuada da sua vida, a revista dava a lume um programa libertário, Alternativa Imediata , inspirado em Paul Goodman, em que se defendia o gradualismo libertário de um Proudhon, de um Kropotkine ou de um Gaston Leval , avançando com a ideia de que o debate ideológico reforma-revolução é cada vez mais desinteressante e (…) um falso problema , pois o que importa são mutações sociais que alarguem a esfera da autonomia própria dos indivíduos e das comunidades (…) , sendo de menos importância as formas (reformas, revolução…) que essas mudanças assumirão (p. 3).
No seio deste debate, reforma e revolução, é indispensável recordar os eventos que se ligam a uma das mais empenhadas e laboriosas cooperantes da Sementeira, Maria de Lurdes Rodrigues, que deu também um contributo inestimável ao nascimento e crescimento do Arquivo Histórico-Social, hoje na BNP. Depois da dissolução da cooperativa em 1992, Maria de Lurdes Rodrigues integrou o primeiro governo de José Sócrates, na pasta da educação. O evento, a alguma distância, e numa época em que A Ideia já deixara de ser uma estrutura colectiva com estatuto jurídico, pôde porém criar algum mal-estar em colaboradores antigos da revista, em primeiro lugar Miguel Serras Pereira, responsável pelos dois últimos números (1990) antes da dissolução da cooperativa. Serras Pereira regressou como colaborador em 2001, na reabertura; depois em 2005, com o caso de Lurdes Rodrigues, afastou-se. O que importa neste caso será esclarecer que a passagem pelo governo da ex-cooperante da Sementeira foi da sua inteira responsabilidade e em nada empenhou a revista, que nunca lhe dedicou, nesse seu trajecto, qualquer palavra de apoio ou de crítica, pois nisso nada a revista punha de si, se bem que tenha recebido, e de braços abertos, no período em que a ex-cooperante ocupava pasta no governo, a colaboração de Miguel Real – mas recebeu-o no seio dos colaboradores não por ser ele um dos críticos da ministra, que pretendeu retratar com traço realista num romance, mas por o seu contributo parecer à revista, além de generoso, valioso.
Neste passo, o do percurso de Maria de Lurdes Rodrigues, a revista A Ideia ficou à distância, com inteira isenção, consciente de que o assunto não lhe dizia respeito. Se é possível, e se vale o papel gasto, ter neste caso hoje uma posição, ela é a de continuar a manter a distância firme e leal que nos permitiu no passado recente acolher no seio da revista Miguel Real – posição que se quer firme o bastante para esperar voltar no futuro a acolher colaboração de Serras Pereira, a quem sempre se agradecerá o muito que no passado fez pela revista.
A Ideia tem sido sobretudo uma revista libertária de pensamento e de criação poética. Caso fosse um jornal destinado a comentar a realidade do dia-a-dia decerto teria tomado posição diferente diante de Lurdes Rodrigues, abrindo as suas páginas a textos críticos, sem por isso as fechar a réplicas de sinal contrário. O papel dos responsáveis da publicação é sempre e em qualquer caso o de assegurar o princípio sagrado da liberdade. Veja o leitor que este princípio norteou o número que tem entre mãos, no capítulo do surrealismo, levando-nos a aceitar, sem preocupações de alinhamentos políticos, religiosos ou outros, colaboração de gente muito diversa. O critério estabelecido foi tão-só o do interesse que os textos apresentavam na perspectiva do estudo e do conhecimento do surrealismo entre nós.
(Continua)
