(Continuação)
A nova fórmula, aprofundada ao longo de dez números, o último em Maio de 1983 (n.º 28-29), chegou a termo com o duplo de Outubro de 1983 (n.º 30-31), voltando a revista a sofrer nova reviravolta gráfica. Troca-se o formato clássico por um maior, introduzem-se mais imagens, cuida-se da composição, alivia-se a mancha, apresenta-se uma revista muito extremada do ponto de vista artístico. Estas modificações, que durarão até Outubro de 1985 (n.º 38-9), são acompanhadas por outras. A revista, que começara por ter apenas um responsável, e ganhara na Primavera de 1981 (n.º 20-21) um colectivo coordenador, colaboradores e correspondentes, passa a ter com a nova fórmula, editores, colaboradores, correspondentes, coordenadores de número e até um responsável gráfico (Vasco Rosa), num total que subiu a cerca de vinte pessoas. Nesta época a revista alargou a audiência, duplicou ou triplicou a tiragem, ganhou distribuição livreira, captou novos assinantes e colaboradores, como Fiama Hasse Pais Brandão, com texto memorável, “História: o Direito à Alucinação” (n.º 30-31), ou Mário Cesariny, que publicou inéditos seus, de António Maria Lisboa e de Fernando Alves dos Santos. A cooperativa editora Sementeira, surgida em 1977, em associação com a revista, desenvolve nesta época parte da sua actividade, chegando a 1985 com cerca duma dezena de livros e várias brochuras em catálogo; a partir do número 32-33, Inverno e Primavera de 1984, a cooperativa passou a ser expressamente a entidade gestora da revista.
O novo modelo, que estabilizou com um conselho de redacção e um leque alargado de colaboradores permanentes, durou até Junho de 1986 (n.º 40-41), momento em que se dá nova alteração gráfica, por abandono da tipografia em que a revista desde 1975 era impressa, isto com um curto interregno (n.º 5, 1976), a Gráfica 2000, na Cruz Quebrada. Os meios da nova gráfica, a empresa Ramos, Afonso & Moita, na rua Voz do Operário, sem fotocomposição, condicionaram o formato, que diminui, e obrigaram a mudanças na mancha, com um texto limpo de ilustrações, sem com isso deixar cair o cuidado artístico anterior. Apesar das alterações de forma, a revista permanece no essencial a mesma. O conselho de redacção pouco se alterou, os colaboradores ficaram quase os mesmos, a distribuição livreira continuou; de igual modo prosseguiu a ligação à cooperativa Sementeira. Uma alteração apenas: a partir do número 50 a revista passou a ser edição patrocinada pelo Instituto Português do Livro e da Leitura , apoio que durou até à saída de Freire da direcção. Os números dirigidos por Serras Pereira, salvante o patrocínio, que desaparece, não introduzem quaisquer alterações formais.
Chegou depois disso o período intercalar, em que a revista suspendeu a publicação e apenas se editam os números simbólicos para assegurar a posse do título. A cooperativa Sementeira, responsável anterior pela edição, é dissolvida em Outubro de 1992. Quando se dá o regresso, em 2001 (n.º 56), a fórmula adoptada será por força diferente. Em lugar dum conselho de redacção, ajudado por um grupo de colaboradores e de correspondentes, surge apenas um responsável, João Freire, que se assume como editor e administrador da revista. A par destas, outras modificações têm lugar. A revista ajusta o formato, perde a periodicidade, diminui o volume (o n.º 56 tem trinta e quatro pp.), deixa a distribuição livreira e baixa a tiragem para trezentos (n.º 56) ou mesmo duzentos (n.º 70) exemplares.
As alterações de subtítulo, as mexidas na direcção ou as mudanças no formato, na apresentação gráfica ou na tiragem não me parecem porém capazes de por si só justificarem diferenças de ideário. As mudanças atrás reportadas não coincidem com estas últimas. Assim a revista que sofreu as alterações de formato no ano de 1980, que tanto lhe mudaram o aspecto, é em substância a mesma de antes. Do mesmo modo, as alterações formais que decorreram da mudança de tipografia em 1987 não trouxeram nenhuma mudança de conteúdo. As diferenças de ideário, a existirem, não seguiram alterações de forma nem trocas de responsáveis. A revista feita por Freire depois da melhoria gráfica de 1980 não apresenta diferenças assinaláveis para com aquela que Abreu orientou, pelo menos a partir de 1977 (n.º 9), em que a luta anti-nuclear chegou à revista. De igual forma a mudança que ocorreu em 1990, com Serras Pereira a substituir Freire, não dá lugar a alterações significativas; a revista ficou a bem dizer a mesma no grafismo, nas colaborações, na orientação. Por isso no momento da despedida, João Freire podia adiantar: Julgo que nada de fundamental separa as minhas ideias e aspirações das do Miguel Serras Pereira (n.º 54, p. 3) E caso separasse, o tempo curto foi para o manifestar, pois o novo director só tirou à sua responsabilidade dois números semestrais, ambos em 1990.
Pergunta-se: fora das alterações formais, houve ou não diferenças de ideário no percurso da revista? E havendo, como e onde se tornam elas perceptíveis? Tomando os primeiros números que a revista publicou e os derradeiros logo salta à vista, além das alterações gráficas, as diferenças de significado. A revista inicial não coincide com a final. Como exemplo, tome-se o primeiro número, publicado em Paris. Trata-se dum desdobrável, cujo reverso é ocupado com um único tema, o grupo de afinidade anarquista, em quatro textos (Murray Bookchin, Diego Abad Santillán, Ricardo Sanz e Miguel Garcia) e o verso com uma citação de Bakunine, outra de Léo Ferré, um historial da bandeira negra anarquista, uma bibliografia sobre a Guerra Civil espanhola e a C.N.T., duas biografias (Mário Castelhano e Camilo Berneri) e um editorial “Como íamos dizendo” que começa assim, o anarquismo nunca morreu em Portugal, e assim finaliza:[A Ideia] define-se como órgão específico reclamando-se abertamente do Anarquismo Social, de uma linha de conduta muito precisa que passa por Bakunine, Malatesta e Berneri e se realiza nos momentos de maior vigor colectivo das revoluções mexicana, russa e espanhola. Pegue-se agora no número 70, publicado em 2011, e passe-se o índice. Dos muitos textos publicados, apenas um respeita a autor libertário reconhecível, Max Stirner. Salvante um outro sobre Camus, nenhum dos restantes comporta qualquer referência arregimentada. As diferenças entre os dois números não podem porventura ser maiores. Dum lado está uma revista de todo empenhada na propaganda libertária, e que a si mesma se vê como órgão anarquista específico, e do outro encontramos uma A IDEIA revista de cultura libertária publicação que, embora libertária, acolhe nas suas páginas um leque de colaborações que nada têm a ver, pelo menos de forma explícita, com a propaganda de tais ideias. O que daqui se pode inferir é que a revista em cerca de quarenta anos trocou, por vontade própria, marcas ideológicas por lastro cultural.
(Continua)

