A REVISTA ” A IDEIA” EM PERSPECTIVA – IDEÁRIO E ITINERÁRIO – 4- por António Cândido Franco

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(Continuação)

Esta versão da “Plataforma Editorial”, cujo antecedente remonta ao Outono de 1980, durará até Outubro de 1989 (n.º 53), último número da responsabilidade de João Freire. O número seguinte, tutelado já por Serras Pereira, substitui-o por documento inédito, “Nova Plataforma Editorial”. A revista trocou ainda o subtítulo que trazia desde 1978, revista de cultura e de pensamento anarquista , por revista libertária, que não mais perderá até 2012. Observando hoje a nova plataforma editorial , mau grado a novidade formal, não nos parece que em substância ela divirja da plataforma anterior, nas suas três versões (1980; 1984; 1986). Porventura por isso a revista orientada por Serras Pereira foi a mesma da tutelada por Freire – e isto que se disse para o aparato, agora se diz para o conteúdo. O facto não surpreende, se avaliarmos o importante papel que o novo director tivera na feitura da publicação anterior, pelo menos desde 1983, e se pensarmos que aquilo que o dividia do antigo director era afinal muito menos do que aquilo que a ele o unia. Demais o tempo que dispôs para orientar a revista foi demasiado curto, menos dum ano, para afirmar qualquer diferença de monta.

Não obstante a continuidade, o nó conflituoso que originou a saída de Freire e a entrada de Serras Pereira é pertinente para a percepção do ideário da revista e das suas diferenças. A mudança teve origem num texto dado a lume por Serras Pereira no número de Maio de 1989 (n.º 51-52), “Crise de Ideias n’ A Ideia?”, um dos raros embriões de polémica que se depara na publicação, pelo menos interna, em que se questiona a partir do editorial do número anterior (n.º 50, Janeiro, 1989), “Algo de Novo na Frente Oriental”, o rumo recente da publicação. Que se diz num texto e noutro? O editorial aplaude os eventos que por então tinham lugar na Polónia e que levaram depois à queda do muro de Berlim (Novembro, 1998) e ao fim da U.R.S.S. (Dezembro, 1991); o texto de Serras Pereira, sem contestar a importância dos factos, discorda que eles signifiquem a supremacia do bloco ocidental sobre o “socialista”, como o editorial podia dar a entender. Avança assim com o traço de   descaracterização da revista, ou da crise das ideias n’A Ideia, que levou que o responsável da publicação pusesse então o lugar à disposição.

A mexida na direcção e na redacção não foi porém suficiente para a revista encontrar uma orientação distinta e superar o mal-estar que o texto de Serras Pereira abrira. No momento em que a cooperativa Sementeira se dissolvia, a U.R.S.S. desaparecia. Nada mais errado porém que fazer valer qualquer equivalência entre os dois factos.

A Ideia não nascera por causa do “socialismo real” nem lhe devia qualquer parcela da sua alma. O anarquismo social da revista, que fora em 1974 o sinal genético do seu parto, não tinha qualquer afinidade, nem próxima nem longínqua, com o que se passara no leste da Europa; o socialismo que nele estava em jogo não tinha raiz em Marx mas em Proudhon; também o foco revolucionário não residia no bolchevismo mas no sindicalismo de acção directa. Talvez assim se entenda a salvaguarda do título e se possa compreender melhor o reaparecimento ulterior, em 2001, da publicação.Assim como assim, não deixa de fazer sentido pensar que o furacão de leste tenha carreado alguma perturbação eA IDEIA revista de cultura libertária paralisia no núcleo mais coeso e antigo da revista, em primeiro lugar em torno da ideia de revolução . Vale a pena reler a derradeira brochura que o grupo editou (1992) e em especial o texto de João Freire, “Ensaio de Análise das Razões de um Encerramento” (1992), onde se retomam, agora no quadro dos novos conflitos mundiais (intervenção no Iraque), algumas das ideias do editorial já referido, “Algo de Novo na Frente Oriental”, de Janeiro de 1989. Mas também neste caso qualquer paralelo com os “comunistas” que na sequência do naufrágio dos sovietes se socialdemocratizaram se mostra desajustado. Fazer um tal paralelo é passar ao lado do código genético da revista, que não comporta, a não ser de forma forçada, comparações deste tipo.

(Continua)

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