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CARTA DO RIO – por Rachel Gutiérrez

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Saudade do tempo em que ler uma crônica fazia parte da nossa vida. Tivemos cronistas extraordinários, ou antológicos, como então se dizia, que nos proporcionavam pequenas pausas bem humoradas ou poéticas num quotidiano já agitado, mas com algo de sólido e permanente ainda palpável. Suas palavras sabiam evocar acontecimentos sutis, pequenas surpresas, momentos mágicos como quando Clarice Lispector encontrou um louva-deus atrás de um quadro, ou quando o grande Rubem Braga seguiu o voo de um passarinho pela cidade; Fernando Sabino nos fazia rir ao surpreender o homem nu no corredor; e Paulo Mendes Campos nos comovia ao descrever o domingo azul do mar.

Saudosismo? Talvez sim. Porque agora vivemos como se a natureza não continuasse à nossa frente, embora maltratada por nós mas sempre generosa, como se não houvesse pôr de sol, como se a primeira estrela não continuasse a nascer inaugural e eterna, e como se olhar o mar, como disse Borges, não fosse para quem o olha a primeira vez, sempre…

Na falsa euforia da contemporaneidade, as revistas das salas de espera dos consultórios médicos ou dentários, que antes abríamos ávidos para ler a última crônica, jazem envelhecidas e abandonadas num canto enquanto cada um dos pacientes de uma imensa maioria consulta o celular ou o tablet, verifica o twitter ou o facebook, busca as promoções comerciais ou envia mensagens e “se comunica” com centenas de amigos ou meros conhecidos da nova e avassaladora realidade virtual. Incapazes de ler ou de simplesmente ficar em silêncio, de exercer o direito ao devaneio, o direito de sonhar. Se sonham, sonham apenas com possuir coisas, pois, como diz Sygmunt Bauman, as pessoas buscam sua identidade não no que são, mas no que consomem, no que usam e aparentam. Na “modernidade líquida”, nada é sólido e só o imediato importa – não temos mais futuro.

Nas antigas crônicas, o que era fugaz talvez não se eternizasse, mas continuava ressoando. O que ressoa agora é o ruído sem sentido de uma agitação sem destino.

O mais grave, porém, é que não apenas perdemos a capacidade do encantamento, perdemos o senso de realidade. E a realidade, invisível para tantos, continua a incluir – gritante! – a injustiça social, a baixa escolaridade no Brasil que, como a riqueza, é pessimamente distribuída; os desmandos políticos, a corrupção e a violência do trânsito, do tráfico e da polícia; a pedofilia e a prostituição infantil e o trabalho de milhares de crianças que não vão à escola; a violência doméstica e as estarrecedoras estatísticas de estupros e assassinatos de mulheres. Sim, continua perigosa a invisibilidade do racismo, do sexismo e da discriminação do diferente, a trágica invisibilidade da nossa falta de solidariedade e de compaixão.

Saudade do tempo em que as crônicas podiam falar de inocentes banalidades.

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