CARTA DO RIO – 149 por Rachel Gutiérrez

Simone de Beauvoir (1908-1986)

 Testament

 Je lègue à mes amis

 

un bleu céruléum pour voler haut

un bleu de cobalt pour le bonheur

un bleu d’outremer pour stimuler l’esprit

 un vermillon pour faire circuler le sang allègrement

un vert mousse pour apaiser les nerfs

un jaune d’or: richesse

un violet de cobalt pour la rêverie

une garance qui fait entendre le violoncelle

un jaune barite: science-fiction, brillance, éclat

un ocre jaune pour accepter la terre

un vert Véronèse pour la mémoire du printemps

un indigo pour pouvoir accorder l’esprit à l’orage

un orange pour exercer la vue d’un citronnier au loin

un jaune citron pour la grâce

un blanc pur: pureté

terre de Sienne naturelle: la transmutation de l’or

un noir somptueux pour voir Titien

une terre d’ombre naturelle pour mieux accepter la mélancolie noire

une terre de Sienne brulée pour le sentiment de durée.

 

 Maria Helena Vieira da Silva

Eu deixo para os meus amigos

um azul cerúleo para voar alto

 um azul cobalto para a felicidade

um azul de além-mar para estimular o espírito

um vermelhão para que o sangue circule alegremente

um verde musgo para acalmar os nervos

um amarelo ouro: riqueza

um violeta cobalto para o devaneio

um carmim que faz soar o violoncelo

um amarelo barita: ficção científica, cintilância, estardalhaço

um ocre amarelo para aceitar a terra

um verde Veronese para lembrar a primavera

um índigo a fim de afinar o espírito com a tempestade

um laranja para aguçar a visão de um limoeiro distante

um amarelo-limão para a graça

um branco puro: pureza

terra de Siena natural: a transmutação do ouro

um negro suntuoso para ver Ticiano

um terra sombrio natural para melhor aceitar a negra melancolia

um terra de Siena queimado para o sentimento da duração.

 

Tradução: Rachel Gutiérrez

* * *

 Creio que juntando pequena mancha a pequena mancha, laboriosamente, como uma abelha, o quadro se faz. Um quadro deve ter um coração próprio, um sistema nervoso, ossos e circulação. Nos seus movimentos, deve parecer-se com uma pessoa, deve ter tempo para os seus movimentos. Aquele que o olha deverá encontrar-se diante de um ser que lhe faça companhia, que lhe conte histórias, que lhe dê certezas. Porque o quadro não é a evasão, deve ser um amigo que nos fala, que descobre riquezas em nós e à nossa volta.*

*citação extraída da monografia Vieira da Silva, de vários autores, publicada por Skirra , Genebra, 1993.

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