Poema de Agostinho da Silva (in “Uns Poemas de Agostinho”, Lisboa: Ulmeiro, 1989 – págs. 28-29) Dito por José-António Moreira (in “Sons da Escrita” N.º 297, 24-Set-2010) Como penso que a matéria é só construção das almas tenho eu que a examinar com atenção e nas calmas guiado por quem a sabe com precisão matemática lhe conhece o que é seguro e o que é audácia temática e como espero que a ciência tenha sempre um atractivo o de não dar do que existe conceito definitivo não só irei prosseguindo em a saber mais e mais me esforçarei por que todos me possam ser como iguais passarei com todo o gosto por bom materialista e em tudo que digam espírito lhe procurarei a pista incitarei a comer incitarei a dormir incitarei a morar e às doenças resistir goze cada qual matéria até dela se enjoar e solte as asas depois se seu gosto for voar que eu voarei por meu lado no céu que os outros fizerem quando depois de ter tudo nem migalhas mais quiserem irei calmo como sempre pois nada me precipita só depois de ser da física passarei à metafísica e bailarei com as almas que quiserem vir comigo feliz de serem felizes as que ficaram consigo. Viva a Vida (Disse a Vida) Poema: Agostinho da Silva (poema “Mas que gente esta tão triste” + dois primeiros versos do poema “Viva a vida disse a vida”, in “Uns Poemas de Agostinho”, Lisboa: Ulmeiro, 1989 – págs. 63 e 142) Música: Paulo de Carvalho Intérprete: Claud* (in CD “Contradições”, Som Livre, 2006) Mas que gente esta tão triste fumadores e fumadoras com o seu império perdido seu passado esquecido e o futuro inconcebido mas tem a vida seu jeito com seu destino perfeito seus planos a cumprir só não os quis descobrir para nada os demolir Viva a vida, disse a vida e nunca mais se morreu [4x] Que ridícula figura farão perante seus netos se é que têm energia bastante para haver netos ou se não recusem estes a nascer de tais avós que sois claro todos vós e seremos todos nós se formos no mesmo rumo Viva a vida, disse a vida e nunca mais se morreu [4x] Que sois claro todos vós e seremos todos nós se formos no mesmo rumo com uma excepção parece esta de mim que não fumo [2x] Viva a vida, disse a vida e nunca mais se morreu [6x] * [Créditos gerais do disco:] Claud – voz Paulo Cavaco – piano, teclados e programações Ruca Rebordão e Paulo de Carvalho – percussões Amadeu Magalhães – violas braguesas, cavaquinho e gaita-de-foles Rui Curto – acordeão Paulo Sousa – sitar João Moreira – tablas Coros – Claud, Paulo Cavaco e Paulo de Carvalho Arranjos – Paulo Cavaco Direcção musical de projecto – Paulo de Carvalho Produção – Paulo Cavaco e Paulo de Carvalho Produção executiva – Claud Gravado nos Estúdios MDL, Paço d’Arcos, por Samuel Henriques, e nos Estúdios MusicArt, Barreiro, por Paulo Cavaco Mistura – Fernando Abrantes e Paulo Cavaco, nos Estúdios MDL, Paço d’Arcos Masterização – Fernando Abrantes Bendito seja o desejo Poema de Agostinho da Silva (in “Uns Poemas de Agostinho”, Lisboa: Ulmeiro, 1989 – pág. 21) Dito por José-António Moreira (in “Sons da Escrita” N.º 297, 24-Set-2010) Bendito seja o desejo abençoada a carícia quanta pena das meninas deserdadas de malícia ou por medo do diabo ou pelo dente de siso não tiveram a feliz propulsão do paraíso propulsão não expulsão que foi ela a força dada para que houvesse na vida a mais perfeita jornada em que regresso nenhum desejamos ao céu falho em que do pai só havia parado olhar duro ralho a outro mundo vagamos nossos votos ali vão os de sumirmos de todo no ponto sem dimensão e vai uma nota ainda de que peço mil perdões o ponto sem dimensão dá todas as dimensões.
Nota prévia:
Para ouvir os poemas e outros textos de Agostinho da Silva, bem como as “Conversas Vadias”,
Poema: Agostinho da Silva (in “Uns Poemas de Agostinho”, Lisboa: Ulmeiro, 1989 – pág. 59) Música: Paulo de Carvalho Intérprete: Joana Amendoeira* & Mar Ensemble (in CD/DVD “Joana Amendoeira & Mar Ensemble”, HM Música, 2008)
Meu amor que te foste sem te ver
que de mim te perdeste sem te amar
quem sabe se outra vida tu vais ter
ou se tudo se perde sem voltar
ou se é dentro de mim que tem de haver
tanta força no meu imaginar
que o poeta que é Deus o vá reter
e te dê vida e faça regressar
para de novo o sonho desfazer
num contínuo surgir e retornar
ao nada que dá ser ao que é
querer ao fado que só dá para se dar
por tudo estou amor e merecer
o que venha para eu te relembrar
só adorando o nada pretender
só vogando nas águas de aceitar.
* Joana Amendoeira – voz Pedro Amendoeira – guitarra portuguesa Pedro Pinhal – viola de fado Paulo Paz – contrabaixo Filipe Raposo – acordeão Mar Ensemble: António Barbosa – 1.º violino Paula Pestana – 2.º violino Ricardo Mateus – viola d’arco Paulo Moreira – contrabaixo e direcção do naipe de cordas Maria Rosa – flauta Rui Travasso – clarinete Carlos Alberto – trompete João Carlos – trompa Arranjos de Mar Ensemble – João Godinho Pós-produção musical – António Pinheiro da Silva Produção executiva – Hélder Moutinho / HM Música Gravado ao vivo nas Praça de Armas do Castelo de São Jorge, Lisboa, no dia 21 de Junho de 2008 (no âmbito da 5.ª edição da Festa do Fado) Captação de áudio – Luiz Delgado Misturado e masterizado por António Pinheiro da Silva e Maria João Castanheira, entre Setembro e Outubro de 2008
Nada fiz a contragosto
Poema de Agostinho da Silva (in “Quadras Inéditas”, Lisboa: Ulmeiro, 1990 – págs. 62 e 90) Dito por José-António Moreira (in “Sons da Escrita” N.º 298, 01-Out-2010)
Nada fiz a contragosto
tudo foi um prazer meu
e nada pedi à vida
do que a vida tanto deu.
Para tantos existir
é uma queixa pegada
terem de ganhar a vida
quando afinal lhes foi dada.
Na tristeza dos triunfos
Poema de Agostinho da Silva (in “Quadras Inéditas”, Lisboa: Ulmeiro, 1990 – pág. 73) Dito por José-António Moreira (in “Sons da Escrita” N.º 297, 24-Set-2010)
Na tristeza dos triunfos
e na alegria das dores
és nada pelo que digas
só vales pelo que fores.
Quem fala de Amor…
Texto de Agostinho da Silva (in “Sete Cartas a um Jovem Filósofo”, Famalicão: Ed. do Autor, 1945, Lisboa: Ulmeiro, 1990 – pág. 23; “Textos e Ensaios Filosóficos I”, org. de Paulo A.E. Borges, Lisboa: Âncora Editora/Círculo de Leitores, 1999 – pág. 239) Lido por José-António Moreira (in “Sons da Escrita” N.º 300, 15-Out-2010)
Quem fala de Amor não ama verdadeiramente: talvez deseje, talvez possua, talvez esteja realizando uma óptima obra literária, mas realmente não ama; só a conquista do vulgar é pelo vulgar apregoado aos quatro ventos; quando se ama, em silêncio se ama.