É já este domingo, 27 de Abril que Sua Santidade, o papa Francisco, vai fabricar mais dois novos santos, duma assentada. João XXIII e João Paulo II. Precisamente, dois dos seus predecessores, que ele próprio também conheceu, na dimensão de visibilidade histórica. O facto mostra, só por si, que, beira dos Papas, chefes de estado do Vaticano, os outros chefes de estado do mundo, por mais exércitos e arsenais militares de que disponham, não passam de outros tantos escabelos dos seus pés. Porque só os Papas são o Poder monárquico absoluto e infalível sobre a terra, pelo menos, no dizer do cristianismo católico romano que ninguém se atreve a contestar, certamente, com medo de vir a ser apanhado pelo anátema papal que mata mais do que todos os arsenais militares dos outros estados do mundo!
A afirmação da infalibilidade dos papas é um completo disparate antropológico e teológico, só possível à luz da teologia do Poder, fundada no Evangelho de S. Paulo, mas que querem? O papa Pio IX (18 Julho 1870) definiu que os papas são infalíveis e, por isso, eles são infalíveis. Como tais, não se enganam e não podem enganar ninguém. Porque tudo o que disserem e fizerem sobre a terra é sempre ratificado, na mesma hora, no céu, por Deus, o do Poder, o inimigo n.º 1 de Deus, o da Humanidade. E não é que, até hoje, ninguém, alguma vez, se atreveu a dizer que o Papa Pio IX estava pirado, quando avançou com uma formulação dogmática deste calibre? Pelo contrário. Vejam que não há chefe de estado do mundo que não diligencie no sentido de vir a obter para si uma audiência com o Papa, em Roma, certamente, na esperança de que o seu Poder pessoal seja visto, a partir de então, como absoluto e infalível, pelos seus respectivos súbditos.
Canonizar homens do Poder monárquico absoluto e infalível, como são os papas de Roma, é o mesmo que promover o culto público de mentirosos e de assassinos institucionais, no grau máximo. Não devemos ter medo das palavras, por mais que elas soem a blasfémia aos pios e hipócritas ouvidos de Roma e da sua Cúria e todos os seus muitos milhões de súbditos fiéis espalhados pelo mundo. O Poder é o pecado do mundo. E o Poder monárquico absoluto e infalível é o pecado absoluto do mundo. Consequentemente, quem aceita exercê-lo é o pecador absoluto do mundo, por mais que a máscara com que sempre se apresenta vestido perante as populações cheire a santidade que tresanda. Perante a Verdade, o que conta é a realidade, não são as múltiplas máscaras com que ela, habitualmente, se nos apresenta. É de Jesus, o que, perante o Poder monárquico absoluto e infalível – em Abril do ano 30, o imperador de Roma, representado, em Jerusalém, por Pôncio Pilatos, e do qual os Papas de Roma são sucessores – esta irrefutável afirmação, “Para isto nasço e venho ao mundo: para dar testemunho da verdade. E todo o que é da verdade, ouve a minha voz!”
O Papa Francisco conhece bem estas palavras de Jesus, mas prefere orientar-se pelas palavras de S. Paulo. Jesus, o crucificado pelo império, é o proscrito, aos olhos de S. Paulo e do Papa, bem como aos olhos de todos os agentes do Poder. A Jesus, o Papa Francisco prefere o Cristo de S. Paulo, e avança sobre toda a folha, sem querer saber para nada dos milhares de milhões de mulheres e homens que, à mesma hora deste próximo domingo, em que decorre a canonização dos papas João XXIII e João Paulo II, gemem esmagados, em todas as nações do planeta, vítimas de todos os crimes institucionais cometidos pelos homens do Poder, a começar e a acabar no Papa de Roma, sem dúvida, o primeiro e o último de todos eles. É esta barbaridade mais obscena que a canonização dos dois Papas da segunda metade do século XX, feita, nesta data, com conta, peso e medida, tenta esconder e silenciar. Em vão. Porque nem os inúmeros jornalistas pés-de-microfone e pés-de-máquinas-de-filmar que vão cair em Roma como abutres, conseguem esconder e abafar. Pelo contrário, mesmo sem quererem, ajudam a pôr ainda mais a nu.
É criminoso institucional, o Papa Francisco. Como é criminosa institucional, a Cúria romana. Como são criminosos institucionais, os jornalistas que, a troco de não perderem o emprego e a fama, se prestam ao sujo papel de mensageiros da mentira e do crime institucionais. O que prova à saciedade que esta continua a ser a hora, cada vez mais avançada, do Poder das trevas. É a hora dos maiores pecadores institucionais mostrarem do que são capazes. Cegos e guias cegos que são, pois nem sequer vêem que estão a cavar a sua própria sepultura e, por tabela, a sepultura da humanidade e da vida. Os milhares de milhões de vítimas humanas que este domingo e todos os dias de cada ano, não têm onde cair mortos e morrem antes de tempo, são os nossos juízes. Sem apelo nem agravo.
O Papa bem pode fabricar, e fabrica, mais dois novos santos. Ficarão aí a testemunhar a sua vergonha e a vergonha da Cúria romana, indubitavelmente, a maior máfia do mundo que tem a seus pés todos os chefes de estado das nações do planeta. Festejem, festejem à tripa forra! A verdade é que o planeta Terra, qual Titanic, já está tragicamente partido em dois e está a meter água por todos os lados. Felizmente e ao mesmo tempo, sem que saibamos bem como, sucedem-se cada vez mais em toda a parte os terceiros dias, e, do oceano da Vida, já se levanta, irreversível, a Terra finalmente humana, sororal, vasos comunicantes, viva comensalidade. É este terceiro dia que eu próprio procuro ser-viver-protagonizar, cada dia de calendário, por mais que se danem os do Poder. E por mais anátemas e desprezos que eles lancem sobre mim!