Morava no Murtal, perto da Parede. Desde a campanha para as legislativas de 1973, quando num Congresso Nacional se deu a cisão no MDP- CDE entre os militantes do PCP e os da chamada extrema-esquerda, todas as semanas, nas noites de sexta-feira, os dissidentes reuniam numa garagem na Rua de Silves; eram umas dezenas de antifascistas moradores na Linha e que depois se espalharam pelo MES, pela LCI, pelo PRP. Quando as reuniões terminavam, um pequeno grupo ia até casa do meu compadre Joaquim Reis, um segundo andar defronte da garagem. Bebia-se um copo e aparecia um vizinho do primeiro andar, o jornalista Avelino Rodrigues, pessoa bem informada, punha-nos ao corrente da evolução do MFA. Porém, apesar dessa informação privilegiada fui apanhado de surpresa.
Naquela quinta-feira acordei à hora do costume, pouco depois das seis. Cerca das sete, quando íamos a sair, uma vizinha, que tinha o hábito de ouvir rádio durante a noite, informou-nos de que estava a dar-se um golpe militar. Aconselhou-nos a não irmos trabalhar, pois os comunicados mandavam as pessoas ficar em casa. A Helena resolveu ficar com os filhos que também não iriam à escola. Levei o carro até São Pedro e tomei o comboio. Nada de estranho pelo caminho. Na 24 de Julho alguns carros da polícia.
No Cais do Sodré entrei num um táxi. O motorista disse-me que o Terreiro do Paço estava cheio de tanques e auto metralhadoras. Não se passava. Subiu a Rua do Alecrim, depois a da Misericórdia. Pôs uma hipótese pessimista – «Isto é um golpe do Kaúlza». – e acrescentou – «o velho (Caetano) amoleceu e o Kaúlza vai endurecer o regime» – Era uma hipótese plausível. Mas eu tinha esperança de que fosse o movimento de que o Avelino nos falava. Chegámos sem impedimentos. No cruzamento da António Augusto de Aguiar, onde a Duque D’ Ávila dá lugar à Marquês de Fronteira, algum aparato – uma auto-metralhadora e policia militar a dirigir o trânsito. O Quartel general ali a poucos metros estava cercado.
No escritório deserto comecei a fazer telefonemas. Liguei a rádio. Ao quarto para as nove ouvi o comunicado do MFA – «As Forças Armadas iniciaram uma série de acções com vista à libertação do País do regime que há longo tempo o domina». E avisava as forças policiais de que qualquer acção hostil seria repelida severamente. Pedia à população para se manter calma e recolhida nas suas casas. Percebi que era mesmo o tal movimento.
Entretanto chegou o Luís Rocha, o argonauta que hoje, com a Lídia Maria, nos escolhe música e que era o director administrativo da editora. O pessoal foi aparecendo e mandámos todos para casa. Resolvemos não funcionar. Telefonei a dois «conjurados». O Jaime Camecelha, já falecido, meu amigo de infância, colega de estudos (um irmão) e primo do general Pezarat Correia veio do BNU de Campo de Ourique e o meu compadre Joaquim Reis, também falecido, tesoureiro numa agência de viagens, zarpou do Cais do Sodré. Começámos a percorrer a cidade. Depressa tivemos um retrato da situação. Depois do meio-dia acompanhámos a coluna que subiu a Rua do Carmo e a Garrett na direcção do Largo do Carmo. Temos uma foto tirada pelo Jaime em que eu e o Joaquim estamos encostados a um blindado em frente do Jerónimo Martins. As empregadas saíram com as suas batas brancas e sobraçando caixotes cheios de laranjas. Nós e muitos outros ajudámos a distribui-las pelos soldados.
Passava do meio-dia. Fomos até ao Camões e subimos a Rua da Misericórdia. Camiões da GNR e soldados da Guarda, postavam-se ao longo da Rua da Trindade. Eram forças fiéis ao governo. Um cabo perguntou-nos se tínhamos tabaco. Demos-lhe um maço de SG e aproveitámos para conversar. Era um “velho” com mais de quarenta anos. Dissemos-lhe que o MFA ia triunfar e que não merecia a pena ele e os colegas sacrificarem as vidas, O homem concordou, tinha mulher e filhos. Mas tinha que obedecer a ordens. Um sargento a poucos metros ouvia a conversa – quando nos despedimos, cumprimentou-nos, sinal de que não discordara dos nossos conselhos.
No Largo do Carmo, apinhado de gente, ocorreram as cenas que são conhecidas com milhares de pessoas, uma multidão inconsciente (nó os três incluídos) que assistia a um empolgante episódio histórico em directo; melhor do que através da televisão… mas muito mais arriscado. Se a GNR tem resistido, haveria muitos mortos. Os lisboetas têm uma longa tradição de curiosidade colectiva. Imagina-se facilmente, ajudados pela vivaz linguagem deFernão Lopes aquele dia de Dezembro de 1383, em que o Mestre de Avis e o seu partido (liderado por Álvaro Pais – «homem honrado e de boa fazenda») – após terem morto o conde de Andeiro, concitaram o apoio do povo de Lisboa: «Os outros quiseram-lhe dar mais feridas, e o Mestre disse que estivessem quedos e nenhum foi ousado de lhe mais dar. E mandou logo Fernando Álvares e Lourenço Martins que fizessem cerrar as portas que não entrasse nenhum, e disseram ao seu pajem quefosse à pressa pela cidade bradando que matavam o Mestre, e eles fizeram-no assim». O povo corria de um local para outro para não perder pitada do que se estava a passar. O pior foi quando o Mestre e o seu partido quiseram que todos fossem para suas casas. Está bem está! A revolução estava em marcha e os mestres e homens bons já nada podiam fazer…
Naquela tarde de Abril, quase seis séculos depois, foi em vão que os apaniguados de Spínola quiseram assumir o controlo da situação. Salgueiro Maia fez o que nós, a multidão, queríamos que ele fizesse. O canhão trovejou, pontaria alta, intimidatória, sinal de que «os nossos» não estavam a brincar. Sem saber como ali fui parar, encontrei-me sob um banco de pedra. Nem Luís de Matos, nem David Copperfield, teriam feito melhor – milhares de espectadores escondidos sabe-se lá onde… Todos sabemos como foi depois até ao epílogo com a saída de Caetano e dos ministros que estavam acoitados no Quartel do Carmo.
Descemos até ao Rossio. Entardecia e fomos para minha casa no carro do Jaime. Na Praça do Município, cruzámo-nos com um grupo de guardas do Corpo de Intervenção, com o capitão Maltês a comandá-los. Afastaram-se para nos dar passagem. Pareciam zombies. Em minha casa havia muita gente – improvisou-se um jantar e ficámos presos à televisão até que, já nas primeiras horas do dia 26 apareceu a Junta e o seu comunicado. O Reis, alentejano e sempre irónico, comentou – «Porra! Que mau aspecto!». Era verdade. E, entre comentários jocosos e copos, lá ouvimos a proclamação da Junta de Salvação Nacional.