IV
Há dias assisti num café da Baixa a uma cena também altamente significativa do estado agudo a que chegou este problema da alimentação.
Um cavalheiro entrou, sentou-se numa mesa ao lado da minha e pediu uma cerveja.
Passadas duas horas e um quarto o criado trouxe-lhe um bock e pôs-lhe por baixo uma rodela de feltro.
O freguês levantou o copo, mirou a rodela, cheirou-a e por fim quis trincá-la. O feltro, que está cada vez menos comestível, resistiu. O homem, como tinha bons dentes, insistiu e conseguiu tirar um bocado da borda, que mastigou conscienciosamente, bebendo no fim uma gota de líquido para ajudar a digestão. Mas, reflectindo que por aquele processo levaria muito tempo, sacou do bolso um canivete, afiou-o no mármore da mesa e cortou a rodela aos quadradinhos, que ingeriu uns após outros com evidente satisfação.
Por fim bateu as palmas e pediu ao criado:
– Traga-me outra cerveja, mas sem torrada…
As coisas já estão assim. O que comeremos nós para o ano que vem?
14 de Janeiro de 1923
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Para ler a terceira parte, publicada a 20 de Abril de 2014, em A Viagem dos Argonautas, vá a:
OS MEUS DOMINGOS – O PROBLEMA DA ALIMENTAÇÃO – por ANDRÉ BRUN


