OS MEUS DOMINGOS – O PROBLEMA DA ALIMENTAÇÃO – por ANDRÉ BRUN

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1881 - 1926
1881 – 1926

 

I

 

Quando eu era pequenino e tinha os olhos azuis e o cabelo loiro, meus pais, obedecendo a um velho costume que data de Adão e Eva, mandaram-me para o colégio. Aí ensinaram-me uma infinidade de coisas. Aprendi a fumar, a jogar a barra e a fazer assobios desgastando um caroço de pêssego num tijolo molhado com saliva. Estes conhecimentos, verdadeiramente úteis e que me têm servido bastante na minha carreira de homem de Estado, eram adquiridos durante o recreio. Durante o estudo, pouco aprendi ou nada. Havia, principalmente, uma hora terrível para mim. Era quando a mestra nos mandava tirar para fora das malas de oleado o caderno dos problemas. O meu fora-me oferecido pela minha madrinha e tinha na capa a Torre de Belém. Poucas pessoas terão contemplado tanto como eu essa jóia da nossa arquitectura. A mestra ditava problemas deste género:

– “Dentro duma adega há uma pipa. Uma torneira, que despeja cinco litros por minuto, leva uma hora a encher a pipa. Quantos anos tem a sogra do dono da adega?”

Alguns dos meus condiscípulos aproveitavam o tempo que lhes davam para resolver estes problemas roendo as unhas ou contemplando os bichos de seda, que tinham escondidos nas carteiras a fazer casulo. Eu, que nunca gostei de roer ninguém e não me interessava pela cultura do cetáceo com cujas extravagâncias se fazem os vestidos de senhora, punha-me a olhar para a Torre de Belém da capa do meu caderno. E, pelo menos, dois lados da torre sei-os ainda de cor. Se os outros dois são iguais, o que nunca fui ver, posso gabar-me de conhecer a fundo aquele monumento histórico.

Cresci. Perdi o meu caderno dos problemas e tenho muita pena, porque seria agora a altura de nele inscrever alguns, bem mais difíceis de resolver que o da idade da sogra do homem da adega. Os tempos que vão correndo deixam a perder de vista o Almanaque de Lembranças. Cada dia é uma charada, cada hora um logogrifo ou um enigma pitoresco.

Por exemplo: VV. Ex.as já pensaram o que hão de comer daqui por um ano, dado o aumento sempre crescente do preço dos géneros alimentícios?

Na Polinésia a questão está a caminho de se resolver, pois, segundo relata um jornal da noite, o antropofagismo, não só se tem desenvolvido nas tribos onde era uso, mas tem-se instalado noutras que ainda o não tinha experimentado. Não pode deixar de ser a vida cara a principal razão deste facto. As comidas devem também estar fora de preço naquelas paragens e os papus nossos primos tratam de se comer uns aos outros à falta de alimento mais barato.

Teremos nós que chegar a esse extremo? Creio bem que sim. Quando uma pescada custar um milhão de escudos e o chouriço estiver a dois biliões de centavos o metro, quando nos juntarmos aos milhares para presenciar o espectáculo extravagante de um arqui-ricasíssimo ir comer dois ovos estrelados ao restaurante, que remédio teremos nós senão deitar o dente ao camaradinha que nos ficar mais perto. Nessa altura não gabo o gosto dos que lançarem sobre mim as suas vistas e, com a lealdade que ponho em todos os actos da minha vida, desde já os previno que tenho muito nervo. E cada osso! Em resumo: carne de terceira e muito ordinária.

14 de Janeiro de 1923

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