
III
Chegou enfim a véspera de Natal. Barata estava em tal estado de fraqueza que foi preciso vesti-lo e um vizinho emprestar o carrinho de rodas em que levava o menino a passear ao Campo Grande para que nele a esposa do Barata transportasse o marido ao restaurante.
Quando lá chegou, a festa ia começar. Já se ouvia o riso das bacantes e o estalar das rolhas dos vinhos gasosos e alucinativos.
Barata entrou radiante ao colo do criado da porta. Ao ver o espectáculo do revelhão do Robalinho, teve um delíquio. Um médico, que foi chamado, explicou, depois de o examinar:
– Este homem está morrendo de fraqueza. É preciso dar-lhe uns fortificantes.
– Não se aflija, sr. doutor, – explicou Barata, voltando a si. – Vou comer tartarugas na grelha, rouxinóis à tártara, carapaus à espanhola e pavão recheado. Cheguem-mos ao bico e verá como fico. Há um mês que me preparo para isso.
– Qual história! – interrompeu o médico. O senhor nesse estado não aguenta essa espécie de comidas.
E, voltando-se para a mulher do Barata, receitou:
– A senhora leve-o para casa, dê-lhe uma chávena de caldo muito leve de duas em duas horas e, se amanhã estiver mais animado, pode deitar-lhe no caldo um pouco de sal e dois baguinhos de arroz, mas descascados…
Segundo me consta o Barata não escapa do revelhão e da sua legítima ambição de comer bem e barato.
14 de Janeiro de 1923
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Ver a segunda parte desta crónica, publicada em A Viagem dos Argonautas em 13 de Abril de 2014, em:
OS MEUS DOMINGOS – O PROBLEMA DA ALIMENTAÇÃO – por ANDRÉ BRUN


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