Apresentamos agora uma antologia da poesia brasileira a partir do Modernismo, que, como se sabe, teve origem na Semana de Arte Moderna de São Paulo de 1922.
MÁRIO DE ANDRADE
( 1893 – 1945 )
“EU SOU TREZENTOS…”
Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
As sensações renascem de si mesmas sem repouso,
Ôh espelhos, ôh Pireneus! ôh caiçaras!
Si um deus morrer, irei no Piauí buscar outro!
Abraço no meu leito as milhores palavras,
E os suspiros que dou são violinos alheios;
Eu piso a terra como quem descobre a furto
Nas esquinas, nos táxis, nas camarinhas seus próprios beijos!
Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
Mas um dia afinal eu toparei comigo…
Tenhamos paciência, andorinhas curtas,
Só o esquecimento é que condensa,
E então minha alma servirá de abrigo.
(de “Remate de Males”)
Musicólogo, folclorista, crítico d’arte, romancista, poeta e, com Manuel Bandeira e Oswald de Andrade, um dos “inventores” do Modernismo brasileiro. Foi autor de um dos mais emblemáticos romances da literatura brasileira, “Macunaíma”, o herói sem nenhum carácter. Da sua vastíssima obra: “Há uma gota de sangue em cada poema” (1917), “Paulicéia desvairada” (1922), “Lira paulistana” (1947) e “Poesia Completa” (1955).