LIVRO & LIVROS – UMA LEITURA DE POESIA DO SOCIAL E DO SOCIALISMO BRASILEIRO: SÉCULOS XIX E XX, DE SÍLVIO CASTRO – por Manuel Simões

livrolivros22Tendo sido publicado no Brasil (São Paulo, Scortecci Editora, 2014) e tendo o Autor corrigido as provas, este não chegou a ver concretamente a obra impressa, em virtude da sua malograda morte em 9 de Maio daquele ano. Também só agora me chegou às mãos um exemplar de tão estimulante trabalho, de que aqui dou notícia.

 Sobre a questão de fundo desta última publicação de Sílvio Castro, é o próprio a referir, naImagem1 “Introdução”, a grande importância que sempre concedeu ao confronto entre poesia e política, recordando até, entre outros trabalhos, o volume Poesia do Socialismo Português no percurso de 1850 a 1974 (Lisboa, Ed. Colibri, 2010), publicação apoiada pela Associação Promotora do Museu do Neo-Realismo. E assume desde logo a interrelação entre as duas obras: «De certo modo, o presente […] nasce daquele, dele tomando o modelo metodológico, naturalmente com todas as claras diferenças histórico-culturais» (p. 9).

 O nascimento da poesia social em território brasileiro remonta ao eclodir do movimento romântico, sobretudo com Gonçalves Dias (o conhecido poeta de “Exílio” e do sabiá) e Casimiro de Abreu, adquirindo maior atenção com os poetas que se ocuparam da denúncia da escravatura, com Castro Alves e Tobias Barreto. Ou como diz Sílvio Castro: «A preocupação social da poesia romântica é, naturalmente, já uma manifestação política clara» (p. 11), embora se tratasse ainda de manifestações individuais. O Autor distingue com clareza a passagem do “empenho social” para o “empenho socialista”, este último mesmo na limitada visão ideológica do Brasil do século XIX, e que dará os seus melhores frutos depois da fundação, em 1922, do PCB – Partico Comunista Brasileiro. E é na passagem dos movimentos literários oitocentistas para os do séculoXX, em que as revoluções são constantes, que o Autor situa a poesia que conduz «à elaboração de uma síntese», uma vez posta em contacto com a política.

Neste aspecto, a investigação passa pela etapa de afirmação do pensamento socialista (com Mário de Andrade ou Carlos Drummond de Andrade, por exemplo), debruça-se depois na confirmação do Modernismo, contemporâneo da criação da política socialista (João Cabral de Melo Neto, entre outros) para se fixar, finalmente, nos exemplos em que se fundem os conceitos de «poesia,  política e modernidade» (Ferreira Gullar, Mário Chamie, Afonso Ávila ou Chico Buarque de Hollanda).

 Imagem2Sílvio Castro expõe, pois, claramente o programa que está na base deste estudo, o qual «procura verificar, nas diversas partes de que se compõe, por meio da análise dos poemas dos poetas brasileiros dos diversos movimentos artísticos dos séculos XIX e XX, os conceitos muito emparentados de “poesia do social” e de “poesia socialista”, bem como as permanências desses mesmos conceitos na mais ampla concepção da história literária e cultural do Brasil» (p. 15).

 Tal como acontecia com Poesia do Socialismo Português, este estudo é acompanhado, nos diversos capítulos, por uma ampla escolha do que Sílvio Castro chama “poemas exemplificadores”, outro tanto material de apoio à análise empreendida pelo Autor. E relativamente ao modelo “português”, os poemas seleccionados contêm agora a menção da obra de que são extraídos, resolvendo uma lacuna de que padecia o anterior volume.

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