POESIA AO AMANHECER – 430 – por Manuel Simões

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Apresentamos agora uma antologia da poesia brasileira a partir do Modernismo, que, como se sabe, teve origem na Semana de Arte Moderna de São Paulo de 1922.

 

                                   MÁRIO DE ANDRADE

                                            ( 1893 – 1945 )

 

            “EU SOU TREZENTOS…”

 

            Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,

            As sensações renascem de si mesmas sem repouso,

            Ôh espelhos, ôh Pireneus! ôh caiçaras!

            Si um deus morrer, irei no Piauí buscar outro!

 

            Abraço no meu leito as milhores palavras,

            E os suspiros que dou são violinos alheios;

            Eu piso a terra como quem descobre a furto

            Nas esquinas, nos táxis, nas camarinhas seus próprios beijos!

 

            Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,

            Mas um dia afinal eu toparei comigo…

            Tenhamos paciência, andorinhas curtas,

            Só o esquecimento é que condensa,

            E então minha alma servirá de abrigo.

 

            (de “Remate de Males”)

 

Musicólogo, folclorista, crítico d’arte, romancista, poeta e, com Manuel Bandeira e Oswald de Andrade, um dos “inventores” do Modernismo brasileiro. Foi autor de um dos mais emblemáticos romances da literatura brasileira, “Macunaíma”, o herói sem nenhum carácter. Da sua vastíssima obra: “Há uma gota de sangue em cada poema” (1917), “Paulicéia desvairada” (1922), “Lira paulistana” (1947) e “Poesia Completa” (1955).

 

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