POESIA AO AMANHECER – 438 – por Manuel Simões
12 anos ago
MÁRIO QUINTANA
( 1906 – 1993 )
OBSESSÃO DO MAR OCEANO
Vou andando feliz pelas ruas sem nome…
Que vento bom sopra do Mar Oceano!
Meu amor eu nem sei como se chama,
Nem sei se é muito longe o Mar Oceano…
Mas há vasos cobertos de conchinhas
Sobre as mesas… e moças nas janelas
Com brincos e pulseiras de coral…
Búzios calçando portas… caravelas
Sonhando imóveis sobre velhos pianos…
Nisto,
Na vitrina do bric o teu sorriso, Antínous,
E eu me lembrei do pobre imperador Adriano,
De su’alma perdida e vaga na neblina…
Mas como sopra o vento sobre o Mar Oceano!
Se eu morresse amanhã, só deixaria, só,
Uma caixa de música
Uma bússola
Um mapa figurado
Uns poemas cheios da beleza única
De estarem inconclusos…
Mas como sopra o vento nestas ruas de outono!
E eu nem sei, eu nem sei como te chamas…
Mas nos encontraremos sobre o Mar Oceano,
Quando eu também já não tiver mais nome.
(de “O Aprendiz de Feiticeiro”)
Estreou-se tardiamente com um livro de sonetos, “A rua dos Cataventos” (1940), de inspiração simbolista, posteriormente marcada pela experiência modernista. Publicou, entre outros, “O Aprendiz de Feiticeiro” (1950) e reuniu toda a sua produção em “Poesias” (1961).