VASCO CABRAL
Moçambicano: 1926 – 2005
2.ª parte
Fernando Correia da Silva
EM BISSAU
Abre-se a porta do avião e fico atordoado com a súbita fornalha húmida de Bissau, pelo menos 40 graus. Mas resisto e desço a terra.
Procuro e instalo-me na acolhedora residencial que o Vasco me indicou. Fica perto do palácio do antigo governador da colónia.
Naquela tarde em que eu parti e tu ficaste
sentimos, fundo, os dois a mágoa da saudade.
Por ver-te as lágrimas sangraram de verdade
sofri na alma um amargor quando choraste.
Ao despedir-me eu trouxe a dor que tu levaste!
Nem só teu amor me traz a felicidade.
Quando parti foi por amar a Humanidade.
Sim! Foi por isso que eu parti e tu ficaste!
Mas se pensares que eu não parti e a mim te deste
será a dor e a tristeza de perder-me
unicamente um pesadelo que tiveste.
Mas se jamais do teu amor posso esquecer-me
e se fui eu aquele a quem tu mais quiseste
que eu conserve em ti a esperança de rever-me!
Em 1953, ainda na prisão, em Lisboa, Vasco começa a escrever poemas que reunirá, já depois da independência da Guiné-Bissau, sob o título A luta é a minha primavera. Acha que a língua portuguesa é a única que pode interpretar e traduzir os anseios das múltiplas etnias guineenses, cada qual com a sua fala própria e tentando ser a exclusiva ou a dominante. Será até ele o fundador da União Nacional de Escritores da Guiné-Bissau (assim mesmo, em português…).
No Ministério da Economia puxo dos meus apontamentos e o Vasco, a Teresa e eu estudamos quais as possibilidades de intercâmbio entre o Estado da Guiné-Bissau e a Federação das Cooperativas de Produção. Depois o Vasco pede que a Teresa me mostre a cidade. Descemos, eu e ela.
Lá em baixo há um automóvel à nossa espera. O motorista percorre alguns bairros da cidade. Acho pitoresca a agitação popular junto ao Mercado de Bandim. Depois paramos no cais de Pidjiguiti onde em 1957 a tropa colonial chacinou 50 marinheiros e estivadores que reclamavam aumento de salários. A Teresa diz-me então que há vários projectos de construção na cidade e por isso o Vasco decidiu que o mais prático seria levantar uma fábrica de tijolos. Paramos frente à fábrica e, todo lampeiro, saio do carro. Ouço uma grande gritaria lá por dentro e começam a chover tijolos sobre mim. Salto, esquivo-me, nenhum me acerta, felizmente… O motorista larga o carro e começa a gritar. Alguém, temeroso, vem da fábrica para a rua. Olha para mim com atenção e diz qualquer coisa que me traduzem: fui confundido com um militar português que, durante a guerra colonial, se divertia a molestar e torturar civis. Para não criar caso, finjo acreditar na explicação, mas realmente não acredito… Porém, 3 anos depois, na vila de Borba (em Portugal) ao entrar eu num tasco para comer e beber alguma coisa, há um bêbedo que corre para mim, de braços abertos, e a gritar:
– Major, ó meu Major!
– Mas qual Major, nem meio Major?
– Ó meu Major, mas já se esqueceu das diabruras que fizemos em Bissau?
Pronto! Afinal há por aí um fascista que tem a minha tromba. Se um dia eu morrer com um tijolada nos cornos, os meus leitores já ficam a saber o motivo…
No aeroporto, um beijo à Teresa e um abraço ao Vasco. Diz-me ele:
– Fernando, oxalá desta vez reapareças antes de passarem mais vinte anos…
MUDAM-SE OS TEMPOS…
Mas nem sequer voltaremos a ver-nos. Primeiro, porque a Federação foi desmantelada pela tal Esquerda que não a suportava. Segundo, porque em 1980 Nino Vieira armou um golpe de Estado que depôs Luís Cabral (irmão do Amílcar) e começou a governar a Guiné-Bissau a ferro e fogo, justamente ao contrário da fraternidade apregoada por Amílcar. E o Vasco, para meu espanto, não tugiu nem mugiu, até aceitou o cargo de Vice Presidente quando o Presidente era um ditador. Como foi isso possível? Temor de ter que voltar à execução de antigos companheiros de armas? Não sei, não sei, não entendo. Ou talvez entenda, porque li Camões:
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança.
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Uma nota final: o Vasco morre em Bissau a 24 de Agosto de 2005.
