SOBRE PIKETTY, SOBRE DESIGUALDADES NA REPARTIÇÃO DO RENDIMENTO, SOBRE NEOLIBERALISMO – NOVA SÉRIE – 3.THOMAS PIKETTY MINA OS PRINCÍPIOS CONSAGRADOS DO CATECISMO CAPITALISTA – NÃO SOMENTE O CRESCIMENTO CAPITALISTA NÃO REDUZ A DESIGUALDADE, COMO A AUMENTA, de JEFF FAUX
joaompmachado
Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
Thomas Piketty mina os princípios consagrados do catecismo capitalista
Não somente o crescimento capitalista não reduz a desigualdade, como a aumenta.
Thomas Piketty Undermines the Hallowed Tenets of the Capitalist Catechism
The Nation, April 18, 2014
Parte II
(conclusão)
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Debaixo da retórica, a mensagem actual da nossa classe dominante é a seguinte: tenha paciência. A maré económica — trazendo consigo bons empregos com bons salários — voltará a irá surgir dentro em breve. Mas virá sempre. Mas como a economia dos EUA entra no sexto ano de recessão e na quarta década de estagnação dos salários reais, os sinais que se tem da evolução futura dizem-nos que desta vez e muito provavelmente esta dita maré não virá.
A previsão “optimista” a dez anos da Administração Obama (por razões óbvias, as previsões da Administração tendem sempre a inclinar-se para o optimismo) é de que haverá um crescimento suficiente para reduzir a taxa de desemprego para o valor de 5,4% em 2018 e tenderá a mantê-la a esse nível até 2024. Dado que a taxa de desemprego em média foi de 4,6% nos três anos antes do rebentar da crise em 2008, enquanto os salários estagnaram, os economistas do próprio Presidente estão implicitamente a prever que o fosso entre a evolução da produção e a dos salários dos trabalhadores irá aumentar ainda mais.
Outros são ainda menos optimistas. Os economistas progressistas como Paul Krugman e Joe Stiglitz — e agora, mesmo até o menos-do que-progressista Larry Summers — pensam que as economias de EUA e da Europa caíram numa situação de armadilha dado a fraca procura dos consumidores que parece ser já crónica. O seu remédio seria o governo fazer mais gastos em educação e na renovação/criação de infra-estruturas para colocar mais dinheiro nos bolsos dos agentes económicos. Mas a reaccionária austeridade fiscal que domina em Washington e Bruxelas — mesmo entre os partidos de centro-esquerda — faz com que tão agressivo keynesianismo esteja votado ao esquecimento político num futuro próximo.
A longo prazo, as perspectivas podem ser francamente desagradáveis. O venerável Robert Gordon, um economista conhecido pelas suas cuidadosas análises, acha que a inovação que tem impulsionado o crescimento durante mais de um século pode bem reduzir a sua média de 2% ao ano desde 1891 para o valor de 0,2 por cento para um futuro já previsível. E quando aumentamos os custos ambientais e as restrições o bom barco Abundância afunda-se e vai para o fundo do mar. .
Os pessimistas, é claro, poderiam estar errados. É certamente possível, se não plausível mesmo, que alguma inesperada explosão de energia empresarial ou uma reconversão simultânea ao keynesianismo possa impulsionar e gerar-se uma taxa de crescimento mais rápida do que até mesmo a previsão optimista que foi estabelecida pelos economistas de Obama. Não poderia isto ser suficiente para flutuar-nos e regressarmos voltar à curva de Kuznets da igualdade crescente?
Leia-se Thomas Piketty, cuja impressionante análise apoiada em anos de pesquisa (600 páginas e um detalhado apêndice técnico on-line de 165 páginas) conclui que Simon Kuznets estava errado. Não só o crescimento capitalista não reduz a desigualdade: aumenta-a .
Usando uma enorme massa de dados e o enorme poder dos computadores, o que não estava disponível no tempo de Kuznets, Piketty debruçou-se sobre um arco de tempo de 200 – 300 anos da história económica das maiores economias capitalistas — principalmente os Estados Unidos, Grã-Bretanha, França, Canadá, Alemanha, Suécia e Japão. Os números mostram que, desde cerca de 1700, com um período excepcional, as taxas de rentabilidade do capital (lucros e juros) excederam a taxa de crescimento económico global. Desde os mais ricos detêm muito do capital reinvestido , a sua riqueza acumula-se mais rapidamente do que a riqueza da grande maioria de pessoas cujo rendimento depende de ordenados e salários.
As excepções à tendência histórica foram os anos de 1914 – 75 na Europa e de 1929 – 75 nos Estados Unidos, em que a desigualdade se reduziu em quase todas as nações ocidentais Segundo Piketty esta época foi única: as consequências de duas guerras mundiais, a grande depressão e o carácter social-democrata da recuperação do pós-guerra na Europa, Japão e América do Norte. Uma vez que os efeitos dessas forças se esgotaram, o capitalismo regressou ao seu funcionamento normal, como uma máquina para produzir “as desigualdades que prejudicam radicalmente os valores meritocráticos em que assentam as sociedades democráticas”.
Além disso — e este é um ponto-chave — ao contrário do que aprendemos nos manuais de divulgação de economia, os mercados parecem não ter nenhum mecanismo auto‑corrector que possa travar o agravamento da má distribuição da riqueza. Se lhes for permitido actuarem sem constrangimentos, um pequeno número de capitalistas apropriar-se-á de tudo o que puder, com consequências sociais que Piketty vê como “potencialmente assustadoras.”
Já voltamos aos níveis de desigualdade de rendimento da década de 1920 e quanto à concentração de riqueza já regressámos para os rácios da década de 1890. As relações sociais do futuro, escreve Piketty poderia assemelhar-se às do mundo de Austen, em que um pequeno grupo dos ricos empregavam vastos exércitos de trabalhadores mal pagos.
Os super-ricos do século XXI são um pouco diferentes do que eram no tempo de Marx, especialmente nos Estados Unidos. Muitos deles são ainda os herdeiros de fortunas obtidas num passado distante. Mas os que agora estão na camada superior do “capitalismo patrimonial” de hoje também incluem os mais recentemente nomeados presidentes das grandes empresas e outros que podem definir os seus próprios salários exorbitantes e deixarem aos seus filhos tanto uma enorme riqueza financeira como o acesso privilegiado aos sistemas de educação e às redes de influência das elites . Para o economista Piketty, o desperdício de recursos em que se traduz o enriquecimento sistemático de pessoas que não têm que trabalhar para viver é particularmente irritante.
Piketty não é certamente o primeiro economista a criticar a riqueza herdada. E a ideia de que o capitalismo é injusto não irá chocar a maioria das pessoas que trabalham para viver. Mas as credenciais do Piketty e a exaustiva atenção dada aos detalhes estatísticos tornam os seus resultados mais duros e mais difíceis para as elites políticas e para os seus especialistas, que protegem a plutocracia, de poderem ser recusados.
Além de expor a fragilidade num princípio fundamental dos cânones dos economistas, a metodologia utilizada para o tratamento dos dados que foi utilizada por Piketty atinge o enviesamento de classe que esconde a maquilhagem enquanto e como ciência do estudo da economia e da formulação da política económica.
A Economia reivindica a sua superioridade sobre outras ciências sociais, com base na sua maior capacidade de quantificar a realidade, ou seja, de a triturar com números. Ainda há décadas os números estavam em conflito com os princípios sagrados do catecismo capitalista. Por exemplo, a lacuna de quarenta anos, entre evolução dos salários e da produtividade negam a teoria de que os trabalhadores são pagos de acordo com a sua eficiência. Vinte e cinco anos de perdas de emprego e de um implacável declínio nos salários devido também à globalização ilustram, pela negativa, o que tem sido uma fé rígida na livre-troca. Não tivemos nos tempos modernos uma espiral de preços em tempo de paz, gerada pelos enormes défices orçamentais dos Estados Unidos e, no entanto, a sabedoria convencional ensina-nos a cortar nos programas de apoio alimentar para aplacar a paranóia da inflação.
Da mesma forma, a doutrina ortodoxa mantém que o ponto central do Piketty não pode possivelmente ser verdade. A taxa de rentabilidade do capital não pode ser superior à taxa de crescimento económico por muito tempo porque quando aumenta a oferta de capital, o seu preço — ou seja a sua taxa de rentabilidade — tem que cair. A resposta de Piketty: olhe-se para os factos, veja-se que estes mostram que no mundo real esse ajuste pode levar tanto tempo (um século ou mais) e causar tantos danos que a teoria é irrelevante.
Piketty não é um marxista. Ele não vê nenhuma alternativa real ao capitalismo global e está pouco interesse em mudar o seu funcionamento interno através de uma participação dos trabalhadores no capital das empresas, das nacionalizações ou da remodelação dos mercados locais e nos nacionais [ ou até mesmo nos mercados internacionais]. Tal como Keynes, o seu objectivo é tornar os mercados um instrumento mais eficientes para o progresso humano. Mas embora ele apoie a agenda progressista para a regulação financeira, o investimento público em educação e nas infra-estruturas e na ajuda aos pobres, ele acha que, numa economia globalizada, o controlo do capital está agora além do controle de qualquer um país — até mesmo dos Estados Unidos. Os esforços individuais feitos por cada país para restringir o capital terão o efeito de afastar para longe os investimentos privados uma vez que o capital é hoje altamente móvel.
A solução definitiva, escreve Piketty, é um imposto progressivo em todo o mundo sobre o capital privado. Piketty entende que isto é agora uma utopia. Mas ele argumenta que o imposto é tecnicamente viável e pode ser gradualmente adoptado região por região.
Aqui Piketty parece estar fora da sua reconhecida profundidade política. Para evitar a conclusão apocalíptica de Marx, ele anda à volta de uma implicação central da sua própria análise: que a redistribuição ascendente da riqueza também gera uma distribuição ascendente do poder político que perpetua a desigualdade. Um imposto global coercivo sobre a propriedade do capital exigiria dramáticas mudanças políticas à esquerda no interior das principais economias — pelo menos nos Estados Unidos, Europa, China, Japão — e uma cooperação sem precedentes entre estas economias rivais, fortemente concorrentes entre si, para para tributarem o capital transnacional e forçar o resto do mundo a aceitar esta mesma tributação. Vamos ver rolar os olhos de espanto a muita gente.
Ainda sobre esta matéria, a proposta do Piketty define um marcador realista para o nível e para a finalidade de uma alteração radical necessária para lidar com a triste conclusão de sua análise económica bastante credível. A análise espicaça os conservadores para quem há “soluções de mercado” para a desigualdade, bem como a esperança liberal de que as reformas de pequeno calibre vão eventualmente conseguir alcançar a justiça social e significativamente de maneira menos custosa.
Ele também critica duramente a falta de urgência que mostram os partidos sociais-democratas do mundo capitalista, cuja resposta à desigualdade tem sido a de esperar que a crise vá passar e que a maré para voltar a flutuar todos os nossos barcos.
Mas se Piketty está certo, o tempo não está do seu lado. O seu estudo confirma o que David Ricardo, Karl Marx e outros economistas do século XIX perceberam bem mais cedo sobre os mecanismos do capitalismo: este não é apenas injusto, é dinâmica e implacavelmente injusto. Até que nós façamos as mudanças radicais seja na maneira como ele funciona, seja nas pessoas a quem beneficia, a actual má distribuição da riqueza e do poder político pode somente tornar as coisas piores.