Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
2.Porque é que o livro Capital in the 21st century (c21c), de Thomas Piketty, teve um sucesso tão grande
John Weeks
Social Europe Journal, 30 de Maio de 2014
John Weeks
Aproximadamente há cerca de um mês — esta é uma história verdadeira — depois de uma reunião de economistas contra a austeridade, apanhei um táxi em Westminster (os trabalhadores do metro estavam em greve). Durante a conversa com o motorista mencionei que tinha ensinado economia na universidade de Londres antes de me aposentar. O motorista perguntou-me então: será que o senhor já terá lido o livro escrito por Piketty, um economista francês? Um motorista de táxi de Londres a discutir um livro de economia, com um pouco menos de 578 longas páginas (somente texto) qualifica o livro como um “fenómeno”, o que, pela definição do dicionário, significa “um facto ou situação que se observa existir ou estar a acontecer, e especialmente no caso em que a causa ou a sua explicação levanta interrogações”. E isto levanta muito mais questões. Pessoalmente, estou a pensar em escrever uma recensão destas 578 páginas (mais a ocasional entrada de uma nota de rodapé) e neste momento, limitar-me-ei a especular sobre o que aconteceu antes.
Encontramos muitas recensões sobre Capitalism in the 21st Century (que passaremos a escrever como C21C), a maior parte delas de economistas progressistas e a serem muito suaves por serem escritas por gente de esquerda. Os que negam o problema das desigualdades ainda têm que lançar um ataque frontal, apesar de um recente artigo do Financial Times escrito por Chris Giles ser já um tiro nessa direcção (resposta do Piketty). O proeminente jornalista britânico Paul Mason de forma sucinta afasta uma tal tentativa destrutiva.
Na minha opinião os dois melhores comentários de analistas progressistas são escritos por Tom Palley e Jeff Faux. O último é importante pela sua discussão sobre as consequências da desigualdade extrema, na sequência do último livro de Faux que é um excelente tratamento de crescente desigualdade e da desindustrialização nos Estados Unidos. Palley levanta a questão extremamente importante de como é que os progressistas devem responder em face de um tão fenomenal sucesso de C21C dado que a sua metodologia, na medida em que poderá ter uma, é basicamente a ideologia mainstream. Palley conclui que em síntese devemos tratar C21C como parte da luta progressista contra a desigualdade e contra as suas causas.
Mais as recensões feitas pelas gentes de esquerda têm sido menos lisonjeiras, variando desde os insultos aos débeis elogios. David Harvey considera que “há muito de valioso”, em C21C, mas considera que os seus remédios contra a desigualdade têm tanto ” de ingénuo como de utópico”, o que é um comentário interessante sobre alguém cujo livro recente inclui no título a frase “o fim do capitalismo”. Um comentário repetido por múltiplos comentadores marxistas o que é pouco como ir a Roma e queixar-se de que o papa não é ateu, sendo certo que Piketty não é um marxista.
Relacionado com a crítica de que “Piketty não é nenhum marxista” estão as objecções levantadas ao título, que alguns vêem como pretensioso, talvez a sugerir que seja um dia como Das Kapital (ver Harvey). Se ainda não viram o livro, então quando o fizerem vão considerar que a palavra capital na capa e em Capital in the Twenty-first Century é muito pequena. A melhor interpretação da capa é que é pretensiosa. Isto não é uma crítica que os progressistas tenham que necessariamente fazer e a nossa tendência é a de fazer igualmente o mesmo.
Porque pareço ser um leitor muito mais lento do que outros, a minha recensão encontra-se ainda no horizonte. Isto não prejudica uma tentativa para especular à volta de porque é que o livro C21C corre o risco de ultrapassar os recordes de vendas para um livro de economia que não é um manual, um resultado que me deixa francamente com inveja. Se devemos acreditar nos rumores sobre as vendas, ficaria extremamente feliz se o meu novo livro, Economics of the 1%, alcançasse uma fracção (mesmo uma fracção muito pequena) das vendas de C21C. Não pode haver dúvidas de que este sucesso é uma verdadeira surpresa para ambos, autor e editora (eu estaria interessado em saber qual o último livro de Harvard University Press, que tenha alcançado os cinco dígitos em vendas).
A explicação habitualmente dada para este sucesso de C21C é que ele representa uma ideia e que é publicada na altura própria. Krugman está especialmente interessado nesta explicação. Ele acredita que o C21C vai sensibilizar ou fortalecer o movimento para restringir a desigualdade nos Estados Unidos e noutros lugares. Eu temo que esse seu optimismo representa, como Samuel Johnson supostamente terá dito dos segundos casamentos, “que são o triunfo da esperança sobre a experiência” (atribuído a Johnson por Boswell).
Depois de considerar o timing de C21C como “quase perfeito”, Palley critica esta explicação por salientar que, pelo menos nos Estados Unidos, podemos encontrar muitos livros que documentam o aumento da desigualdade, incluindo pelo menos dois escritos por James Galbraith, que são consideravelmente mais legíveis do que C21C. Também deve ser notado que uma parte importante do C21C deriva de um artigo que Piketty escreveu com Emmanuel Saez (que, lamentavelmente, C21C relega para notas de rodapé, excepto duas menções de passagem no texto).
A explicação de que “tinha chegado na altura própria” sofre com o problema de responsabilização de ou face a uma coisa que não sabemos explicar (o sucesso de C21C) por algo mais que não podemos explicar (a chegada na altura própria). Uma variante da explicação “do momento adequado ” é a sugestão de que C21C teve este sucesso devido ao grande elogio feito por Krugman. Esta argumentação convencer-me-ia se outros livros elogiados por Krugman tivessem atingido níveis de vendas fenomenais e não estou a pensar em ninguém de especial (veja-se por exemplo a sua revisão no ano passado de três livros sobre a austeridade, nenhum dos quais, que eu saiba, teve esta mesma sorte que Piketty.
Acho que o fenómeno de C21C resulta da combinação da preocupação crescente na América do Norte e na Europa Ocidental quanto ao impacto da desigualdade do rendimento e da riqueza, com um amplo consenso nos meios de comunicação sobre a aplicação de políticas de austeridade e sobre as tácticas da apresentação do livro de Piketty. Nós deparamos-nos frequentemente com críticas extremamente fortes dos media, a poderem ser vistas até como indignação, quando se fala de grandes bónus dos banqueiros, sobre os excessivos lucros das empresas e sobre os estilos de vida extravagantes dos super-ricos.
Ao contrário, os media não mostram nenhum interesse nos argumentos teóricos postos contra a doutrina da austeridade orçamental. A seu crédito Krugman tem consistentemente apresentado os argumentos teóricos disponíveis para a redução do défice nos Estados Unidos e na Europa. Contudo, não há ninguém na Grâ Bretanha que escreva regularmente uma coluna num jornal ou numa revista e que apresente uniformemente pontos de vista anti-austeridade, nem há também sinais significativos de que isso se faça nos outros media. A posição de anti-austeridade é confinada quase inteiramente aos media que têm como suporte a internet, ou seja, que têm muito menos leitores .
Eu suspeito — deixem-me garantir-vos de que nunca falei com Piketty, simplesmente ouvi-o uma vez falar numa entrevista via vídeo — que uma decisão táctica foi feita para evitar a análise da política macroeconómica em C21C, assim como para evitar directamente a confrontação em debates políticos. A maioria das exposições precedentes sobre a desigualdade tinham-na ligado evidentemente às políticas neoliberais da desregulação, especialmente no sector financeiro. Diversos anos de ataques constantes e caracterizados por alguma duplicidade nesta matéria obviamente corrigiram a causalidade através da corrente dominante do pensamento económico, com os homens de direita no centro dessa correcção. Tão bem sucedido foi este contra-ataque que na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos a maioria das pessoas acredita que a despesa excessiva do sector público explica a ausência de uma situação de retoma económica se que não é mesmo a causa da própria crise.
Ao enumerar os numerosos pontos fracos de C21C neles não devemos incluir a “ingenuidade”. A menos que eu esteja errado, a decisão foi tomada para manter C21C centrado estreitamente sobre a desigualdade na repartição e na riqueza, ao mesmo tempo que recheou essa discussão com desvios sem conta em comentários de ordem cultural e histórica. O objectivo era o de estimular o debate sobre a desigualdade mais do que tratar seriamente das causalidades ou das políticas. Esta nunca seria a via que eu seguiria se escrevesse C21C, mas – hey – a via utilizada funcionou. Piketty colocou a bola da desigualdade em jogo e agora os progressistas que estabeleçam um objectivo e que ganhem o jogo.
http://www.social-europe.eu/2014/05/c21c/

