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PABLO NERUDA
( 1904 – 1973 )
A LÂMPADA MARINHA (fragmento)
Quando tu desembarcas
em Lisboa,
céu celeste e rosa rosa,
estuque branco e oiro,
pétalas de ladrilho,
as casas,
as portas,
os telhados,
as janelas
salpicadas do oiro do limão,
do azul ultramar dos navios.
Quando tu desembarcas
não conheces,
não sabes que por detrás das janelas
escutam,
rondam
carcereiros de luto,
retóricos, severos,
empurrando presos para as ilhas,
condenando ao silêncio,
pululando
como esquadras de sombras
sob janelas verdes,
entre montes azuis,
a polícia
sob as outonais cornucópias
buscando portugueses
rascando o solo,
destinando os homens à sombra.
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