Site icon A Viagem dos Argonautas

A FRONTEIRA ONDE BORGES ENCONTRA O BRASIL – 11 – por Carmen Maria Serralta

 

POSFÁCIO

 

       No poema “A un poeta menor”, Borges se pergunta:

 

Ernildo Stein

 

Donde está la memoria de los días

Que fueron tuyos en la tierra, y tejieron

Dicha y dolor, y fueron para ti el universo?

 

        A pesquisa que ora se publica, com toda a dedicação e fineza, nos traz não apenas um evento, mas sua inserção num contexto histórico preciso, que não somente acrescenta, a tantos estudos sobre o poeta, algo novo, mas redime, em sua narrativa, uma dimensão que poderia ter-se perdido no tempo e na soma de análises de Borges. A autora responde à pergunta do poeta afirmativamente, de certo modo na contramão dos versos que seguem à pergunta:

 

El río numerable de los años

Los ha perdido; eres una palabra en un índice.

 

           O grande Borges certamente não teria o destino do poeta menor sem o empenho dessa serena apresentação de um acontecido, quase uma miniatura na grande obra. É essa, justamente, a importância dessas páginas que acrescentam algo que se poderia perder nos ruídos da grande literatura.

           Borges trabalhava muito, em sua obra, com as metáforas do olvido e da memoria, chegando a se perguntar, no poema acima referido:

 

Pero los días son una red de triviales miserias

Y habrá suerte mejor que la ceniza

De que está hecho el olvido?

 

               Carmen Maria Serralta não é apenas mais uma autora que procura redimir Borges de sua melancolia. A autora, antes, faz como o autor escreve em seu soneto Del Vino. Como o vinho:

 

nos prodiga su música, su fuego y sus leones.

 

               A autora aprendeu com os versos do poeta a levar a sério mesmo um detalhe de sua história:

 

Vino, enséñame el arte de ver mi propia historia

Como si esta ya fuera ceniza en la memoria.

 

            Mas não permite com as análises de um evento vivido por Borges na fronteira, entre Livramento e Rivera, que o vivido se torne cinzas.

              Borges mesmo, na sua “Milonga de Albornoz”, nos traz os versos que revelam o jogo desta luta entre o esquecimento e a lembrança:

 

Pienso que le gustaría

saber que hoy anda su historia

en una milonga. El tiempo

es olvido y es memoria.

 

             Pode parecer que a discreta forma desse trabalho de investigação representa apenas mais uma forma de erudição para falar do poeta. Mas, na verdade, num poema de sua obra tardia, Borges como que nos pede um gesto, mesmo desapegado, para continuarmos a sua história:

 

La memoria no acuña su moneda

Y,  sin embargo, algo se queda.

Certamente, o poeta agradeceria esse esforço quase silencioso que preserva algo que se poderia ter perdido:

 

Que el mármol no ha salvado

Surgió la valerosa

Y singular idea de inventar la alegría.

 

              Borges diz “otoños de oro la inventaran”, isto é, foi o vinho “que nos prodiga su música, su fuego y sus leones”.

              Carmen Maria Serralta nos introduz, com seu livro sobre um evento de fronteira, na grande história de Jorge Luis Borges.

Exit mobile version