JORGE LUIS BORGES – I – por Carmen Maria Serralta Hurtado

Carmen Maria Serralta, uma argonauta brasileira de RioImagem1 Grande do Sul, da cidade colada a Rivera, no Uruguai, falar-nos-á, hoje e amanhã,  sobre Jorge Luis Borges, um escritor controverso pela sua posição política relativamente à feroz ditadura militar, mas autor de uma obra de incontroversa qualidade literária. São excertos de um livro de sua autoria – A fronteira onde Borges encontra o Brasil – vestígios de uma travessia. Como diz no pórtico deste seu ensaio, é «na qualidade de antiga e fiel leitora de Borges» que se apresenta para uma informal conversa com os leitores.

Comecemos então essa conversa:

 

É, sobretudo, na qualidade de antiga e fiel leitora de Borges que me apresento diante de vocês para uma conversa que quer ser o mais à vontade possível. É meu desejo assinalar alguns aspectos que parecem relevantes quando de sua passagem pelos campos da região noroeste do Uruguai – espaço próximo e em parte contíguo à linha de fronteira com o Brasil – até desembocar na significativa visita a nossa cidade. O assunto é, pois, Borges – o homem e o escritor – na fronteira Brasil/Uruguai. Desejo ainda esclarecer que não tenho nem a intenção nem a pretensão de fazer qualquer análise crítica do trabalho literário do escritor. Isso cabe a críticos, pensadores e escritores, e tem sido feito exaustivamente com competência no mundo inteiro. Tentarei, portanto, me restringir ao tema proposto. Antes, porém, gostaria de lembrar alguns dados, ainda que sucintos, de sua vida e obra.

Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo nasceu em Buenos Aires na casa de seus avós maternos em um frio 24 de agosto de 1899* e faleceu ao amanhecer (na hora em que “a luz risca o ar”) do sábado 14 de junho de 1986 em Genebra – uma de suas, por ele assim chamadas, cidades. Borges está mundialmente consagrado como um dos maiores escritores do século XX, sendo já considerado um clássico da literatura ocidental, isto é, alguém que criou não somente uma obra, mas sim um universo – um sistema literário. Assim como o rei Midas da mitologia grega convertia tudo o que tocava em ouro (e aí se esgota a analogia, pois esse rei é o contrário de um criador), Borges transmudou toda sorte de criação humana (doutrinas religiosas, filosofia, cosmogonias, etc.) em literatura. Tudo, para ele, era passível de tornar-se matéria ficcional: do hinduísmo à cabala judaica; de certos dogmas do cristianismo à teologia; do budismo aos mitos clássicos, e assim por diante. O mundo, o universo, o próprio homem, a realidade toda, em suma, como que lhe servia de pretexto – pré-texto – para a criação de seu próprio texto literário.

Borges foi contista, ensaísta, poeta e, a partir de 1946, em razão de um sério contratempo motivado por questões políticas – episódio que será lembrado mais adiante – também foi conferencista. Não se pode esquecer, portanto, que existe um brilhante Borges oral, desdobrado em entrevistas, reportagens, diálogos e conversas. Ele foi o que se usa chamar, em francês, um grande causeur: alguém que fala bem e tem o gosto da conversação. Muitas dessas entrevistas e conversas – algumas nascidas para serem publicadas em livros – acrescentam valiosas informações à sua obra, ao seu pensamento e a aspectos de sua vida. Em geral, são opiniões expressas de modo informal e espontâneo, às vezes com respostas irônicas, sobretudo em matéria política quando provocado por algum entrevistador inconveniente, embora ele soubesse que isso lhe iria custar violentas críticas. Do contrário, respondia de bom grado e simpatia a qualquer assunto perguntado, contanto que lhe interessasse. Valho-me desse rico material para lhes passar informações relevantes ao tema que agora nos ocupa. Isso explicaria o uso e abuso premeditado que faço de citações, mas talvez não chegue a me eximir.

(Conclusão amanhã)

__________

Nota da Coordenação:

Dado pooco relevante, mas que nos parece assinalável é o da ascendência portuguesa do grande escritor argentino. De acordo com um estudo de Antonio Andrade, o bisavô de Borges, Francisco, teria nascido em Portugal em 1770, em Torre de Moncorvo, situada no Norte de Portugal, antes de emigrar para a Argentina, onde teria casado com uma  jovem argentina, Cármen Lafinur. O próprio Jorge Luis Borges escreveu “Nada ou muito pouco sei dos meus antepassados portugueses: os Borges”.   Mas por diversas vezes se referiu a essa ascendência. Há quem diga que o fazia para recusar liminarmente a hipótese de a família provir de Espanha. Mas, eis o poema, um soneto,  de que retirámos a citação:

Nada o muy poco sé de mis mayores
portugueses, los Borges: vaga gente
que prosigue en mi carne, oscuramente,
sus hábitos, rigores y temores.

Tenues como si nunca hubieran sido
y ajenos a los trámites del arte,
indescifrablemente forman parte
del tiempo, de la tierra y del olvido.

Mejor así. Cumplida la faena,
son Portugal, son la famosa gente
que forzó las murallas del Oriente

y se dio al mar y al otro mar de arena.
Son el rey que en el místico desierto
se perdió y el que jura que no ha muerto.

1 Comment

Leave a Reply