Este livro nasceu com uma incontestável vocação: a de tornar-se referência. Ao reconstituir um período da vida de Jorge Luis Borges quando, nos idos de 1930 do século passado, o escritor conheceu os verdes do nosso pampa, Carmen Maria Serralta, após pesquisa minuciosa, nos revela tanto as lembranças que a visita do escritor deixou na fronteira do Uruguai com o Brasil quanto a marca, indelével, que um espantoso acontecimento presenciado por ele em Santana do Livramento imprimiu no imaginário e, consequentemente, na obra do genial argentino.
A fronteira é o Aberto, vislumbre do infinito, fim e recomeço, o que nos limita e expande ao mesmo tempo, ou, como diria Fernando Pessoa, um pórtico para o impossível. Mas a estada de Borges em nossa fronteira, que alguns poderiam julgar fantasiosa ou difícil de provar, está agora muito bem documentada no livro de Carmen Maria. E assim como precisamos observar de perto os marcos na campina para saber de que lado ou em qual dos dois países deixamos nossas pegadas, o texto começa por registrar muitos relatos para fazer do esparso o conciso, do esquecido, o reencontrado, do duvidoso, o comprovado. Entrevistas, cartas, alusões, citações, velhas e novas fotografias ajudaram a reconstruir pouco a pouco a aventura borgiana em nossa terra, no ano de 1934. A linda casa branca (Las Nubes) em estilo art déco, que pertenceu ao célebre escritor uruguaio Enrique Amorim e a Esther Haedo, prima de Borges, continua intacta na colina próxima da região ainda conhecida como a “coxilha de Haedo”, nome que ressoa em nossa língua e evoca antigos poetas, rapsodos, os aedos da Grécia arcaica. Sabemos que o autor do Aleph se considerava acima de tudo um poeta. Também intacta está a piscina que “mitiga e domestica o verão”, como afirmou o poeta Borges, e a misteriosa estátua de uma mulher, que mais parece uma carranca, “uma figura de proa num pedestal”.
Carmen Maria fez várias peregrinações aos locais visitados pelo escritor, consultou jornais, revistas, releu entrevistas, conversou com parentes e relembrou informações, como as do antigo livreiro de Rivera, um senhor encantador de nome Julio López. E acima de tudo, percorreu incansavelmente a obra de Jorge Luis Borges para nos mostrar todas as vezes que ele menciona ou descreve o fato espantoso que o marcou.
Em sua estreia em livro, a musicista e tradutora Carmen Maria Serralta revela-se agora, além de uma historiadora apaixonada, alguém capaz de restituir à palavra amadora sua primitiva dignidade, a de quem ama e respeita o que faz.
Uma leitora privilegiada pela sensibilidade, agudeza de visão de mundo, fluidez de linguagem, cuja simplicidade poderia enganar um desavisado. Uma fronteira que confunde o viajor incauto, pelo traçado invisível entre duas cidades, dois países. Assim são Carmen Maria Serralta e Santana do Livramento e Rivera. Revelaram sutilezas, embrujo e surpresas, especialmente significativas para dar vida ao projeto “Fronteiras Culturais em Livramento e Rivera”, do CELPCYRO, tornando-se referenciais para os desdobramentos desse trabalho. Agora, o relato dessa “travessia” de Borges me admira e encanta.
Uma leitora privilegiada pela sensibilidade, agudeza de visão de mundo, fluidez de linguagem, cuja simplicidade poderia enganar um desavisado. Uma fronteira que confunde o viajor incauto, pelo traçado invisível entre duas cidades, dois países. Assim são Carmen Maria Serralta e Santana do Livramento e Rivera. Revelaram sutilezas, embrujo e surpresas, especialmente significativas para dar vida ao projeto “Fronteiras Culturais em Livramento e Rivera”, do CELPCYRO, tornando-se referenciais para os desdobramentos desse trabalho. Agora, o relato dessa “travessia” de Borges me admira e encanta.