Site icon A Viagem dos Argonautas

EDITORIAL – Trincheiras, linhas de defesa e telemóveis

logo editorialAo longo da raia que nos separa do estado vizinho, erguem-se castelos, muralhas, fortificações abaluartadas, alguns belos exemplares de arquitectura militar que, hoje, ultrapassada a sua utilidade estratégica, fazem as delícias de investigadores e de especialistas de áreas específicas da história da arte. São particularmente belos os fortes que foram erguidos durante a guerra da Restauração da Independência (1640-1668).

Há cem anos, a Primeira Guerra Mundial estava nos seus primeiros dias e o telégrafo, único veículo transmissor de notícias para longas distâncias crepitava, debitando telegramas que as agências de informação distribuíam pelas redacções dos jornais – nem rádio, nem televisão, nem internet… Num mundo que as novas gerações dos nossos dias terão dificuldade em imaginar, estava-se nos primeiros dias de uma catástrofe humanitária de dimensões gigantescas. As tecnologias da informação eram, comparativamente, incipientes, escassas… a indústria da guerra dava, no entanto, gigantescos saltos qualitativos – a aviação de combate, os carros blindados, os chamados tanques, os gases, anunciando a guerra química, deixavam para trás as cargas de cavalaria e as próprias trincheiras que caracterizaram o conflito, começavam a revelar-se anacrónicas – aviões e dirigíveis, ultrapassavam-nas com facilidade. Porém, os próprios militares digeriam com lentidão os avanços da indústria de guerra – em França, duas décadas após o termo da Grande Guerra, ainda se acreditava que uma «trincheira» sofisticada construída ao longo da fronteira com a Alemanha poderia suster qualquer intento de invasão.

A Linha Maginot, custando cerca de cinco mil milhões de francos da época, era autónoma em termos de energia, sendo composta por 108 fortes distanciados 15 km uns dos outros, com diversas casamatas de permeio e mais de 100 quilómetros de galerias. Um problema orçamental interrompeu a construção, deixando 20 quilómetros por concluir. Foi por ai que, tranquilamente, as tropas germânicas passaram. A aviação também ignorou a formidável estrutura, verdadeiro monumento à ignorância dos marechais franceses. Mas tudo é relativo, como disse certo judeu – a linha Bar – Lev, cadeia de fortificações construídas por Israel ao longo da costa oriental do Canal do Suez, depois da conquista da Península do Sinai,, em 1967, durante a Guerra dos Seis Dias, embora considerada uma obra rudimentar, foi a primeira estrutura de defesa a ser construída em questão de horas com uso de água pressurizada, tornando o feito, um acontecimento inédito e sem precedentes nos anais da engenharia militar. Trinta anos depois da linha Maginot ter falhado, a linha Bar – Lev, foi eficaz. O Muro de Berlim também separou dois conceitos sociais durante 28 anos. Até que caiu, não por terem desaparecido as diferenças conceptuais, mas porque um dos conceitos foi absorvido pelo rival.

Piores, e mais eficazes, no mau sentido, do que os muros físicos, são as barreiras ideológicas, religiosas, que separam os homens. Abraão, Cristo, Maomé, Marx… são arrancados aos seus túmulos e, mortos, sacos vazios, são agitados como títeres por gente asquerosa. Dividem os seres humanos de uma forma que trincheiras, e linhas de «defesa» não conseguem. E não há tecnologia que as ultrapasse. Pelo contrário, usam a tecnologia para ultrapassar barreiras – a Jihad islâmica, espalha a fé por telemóvel – do mesmo modo como a Rádio Popular ou o El Corte Inglés captam clientes. A tecnologia ao serviço do obscurantismo.

 

 

 

 

Exit mobile version