EDITORIAL – A Legião Condor homenageada em Espanha
carlosloures
O facto de após a II Guerra Mundial, tendo os Aliados prometido erradicar o fascismo e o nazismo, tenham tolerado por três décadas as duas ditaduras que oprimiam os povos da nossa Península é bem elucidativo sobre o valor das ideologias quando colocadas no tabuleiro da realidade. Um Salazar manhoso, com truques de sacristia, logo proclamou uma «democracia orgânica» – manteve a polícia política e todos os mecanismos de repressão, mas moderou o entusiasmo da corja e cortou no folclore fascista – as imagens de Salazar e de Carmona fazendo a saudação romana deixaram de ser vistas. Em Espanha o velho bandido galego manteve toda o sinistro aparato. Os americanos e os ingleses fizeram vista grossa – a Guerra Fria não aconselhava que mais dois partidos comunistas fossem legalizados.
Com a Revolução dos cravos em Portugal e com a transição em Espanha, as direitas tiveram comportamentos diferentes nos dois estados. Em Portugal, o fascismo formalmente extinguiu-se ou é residual – só há «democratas»… Em Espanha, a transição manteve todo o lixo franquista – a democracia permite mesmo que exista uma Fundação Francisco Franco. Fundação que há tempos processou um artista plástico por, alegadamente, ter atentado contra a imagem do «generalíssimo». Ora a imagem de Francisco Franco Bahamonde vale mais do que a de Hitler?
Vem isto a propósito de uma notícia que colhemos no jornal Público de Espanha – e segundo a qual uma associação neo-fascista, Tercios de Aguilar, homenageou no sábado passado os “valentes voluntários alemães” da Legião Condor. Foram estes «heróis» que no dia 26 de abril de 1937, destruíram a cidade basca de Guernica. Numa segunda-feira, dia de mercado para os sete mil habitantes da pequena cidade, tudo parecia tranquilo quando, por volta das 16h30, os sinos da igreja começam a tocar a rebate. – minutos depois começava o massacre. Esquadras de bombardeiros Heinkel 111 e Junker 52, num total de quarenta aviões, lançaram trinta toneladas de bombas e metralharam sem piedade homens, mulheres, crianças e até gado. A cidade ficou completamente destruída. Um acto heróico, na verdade.
No dia seguinte ao desta homenagem aos “heróis” da Legião Condor, no domingo passado, Angela Merkel e Mariano Rajoy reuniram-se em Santiago de Compostela. Manifestantes que protestavam contra a austeridade, foram afastados com uma violenta carga policial.
Assim vai o mundo. Assassinos são homenageados; a memória de ditadores fascistas tem de ser defendida e a sua imagem preservada, manifestações de protesto são recebidas à bastonada…. Será a isto que chamam «cumprir as regras do jogo democrático»?