EDITORIAL – PUNHO ERGUIDO OU DEDO ESTICADO

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A propósito da polémica desencadeada pelo gesto do jogador catalão, Gerard Piqué, quando soava a Marcha Real, o hino a que André Malraux, em l’Éspoir, chama «música de carrossel», um dos poucos hinos sem letra, recordamos o jogo que, em Fevereiro de 1937 se realizou nas Salésias entre a selecção portuguesa e a «selecção de Espanha libertada». Libertada significava, ocupada pelo exército franquista – estava-se em plena Guerra Civil.

Sem o protagonismo mediático de que hoje goza, o futebol era já um poderoso meio da aglutinação de massas. Franco fez questão de que o jogo de realizasse, pois era uma forma de consolidar e oficializar aos olhos da opinião pública mundial a existência de uma Espanha que a comunidade internacional e a Sociedade das Nações – antecessora da ONU – considerava ilegal, rebelde – pois o governo legítimo continuava a ser o da República, regime que a maioria do eleitorado escolhera em 1931.

Quando soou A Portuguesa, os jogadores estenderam o braço direito na saudação fascista que irmanava o governo de Salazar com o do general galego. Mas nem todos fizeram esse gesto do obsceno ideário que sangrava Espanha e em breve iria provocar 70 milhões de mortos – futebolistas portugueses. Jogadores de Os Belenenses – Amaro e Azevedo e um terceiro, cujo nome não recordamos, os levantaram mas com os punhos fechados. Quaresma e um outro ficaram com os braços caídos ao longo do corpo, na posição militar de sentido. Terminado o jogo (que Portugal venceu por 2.1), os cinco «comunistas» foram directamente para a sede da PVDE. Só não ficaram detidos, pois o presidente do Belenenses era um fiel amigo de Salazar. «Tudo não passou de uma rapaziada», foi a tese que prevaleceu.

Oitenta anos depois, um jogador catalão e, dizem, catalanista dissimuladamente, faz o tal gesto. Não concordamos com Piqué – se aceitou defender as cores do Estado espanhol, devia respeitar os símbolos que o representam. Os mercenários cumprem contratos. O que levará catalães, bascos, galegos, a vestir uma camisola que trai o seu patriotismo, se são patriotas, como Piqué diz ser? Aceitar integrar a selecção espanhola é uma traição à Catalunha e não se redime com um gesto ordinário. Os cinco portugueses arriscaram tudo para não fazerem a abjecta saudação fascista (houve quem não saísse vivo das garras da polícia política… Piqué é premiado com uma campanha publiictária.

Uma nota final. No som do vídeo é colocado o hino nacional da Catalunha –Els Segadors – em vez da música de carrossel, que representa a inexistente pátria que há quinhentos anos uma castelhana e um aragonês sonharam, que um galego pançudo, responsável por milhares de mortos, consolidou e que «democratas» encarregados de transformar um estado fascista numa democracia se  esqueceram de mudar ou de repor o Himno de Riego.

O autor do vídeo devia pedir desculpa aos catalães por esta manipulação grosseira. Mas é melhor esperarmos sentados.

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